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Desse jeito foi a ordenação episcopal de Casaldáliga

Desse jeito foi a ordenação episcopal de Casaldáliga

O Pedro nunca quis ser bispo. Nunca gostou da ideia de fazer parte da ierarquia da igreja. Por isso, a primeira reação dele ao receber a comunicação de sua nomeação episcopal foi dizer “não”. Porque aceitou?

Fazia apenas 3 anos que tinha chegado ao povoado de São Félix do Araguaia, onde aos poucos, estava construindo uma comunidade eclesial fixa. Uma “missão” na Amazônia, ao nordeste do Mato Grosso, na divisa com o Pará e o Tocantins.

Casaldáliga chegou no Araguaia em julho de 1968, acompanhado de Manuel Luzón, os dois da Congregação dos Claretianos. Após uma breve passagem por São Paulo, chegaram na Amazônia depois de uma semana de caminhão.

A tarefa principal de estruturar uma igreja estável na região deparou-se rápidamente com a realidade: uma região de migrantes, vindos de muitas partes do Brasil atraídos pelas “políticas de colonização da Amazônia”.

 

Arribada de Casaldàliga i Manuel Luzón a São Félix do Araguaia

Aquesta és la primera fotografia que tenim de l’arribada de Casaldàliga i del seu company claretià Manuel Luzón a la regió de l’Araguaia el 1968.

 

Situada a mais de 1.200Km da capital do Estado, Cuiabá, a escassa presença do Estado condenava seus habitantes a ausência de qualquer serviço de saúde ou educacional. A estrutura fundiária, caracterizada pelas fazendas que chegaram a ter o tamanho de estados determinava uma sociedade rasgada no meio: de um lado, os grandes latifundiários, seus capatazes e seus “capangas”. Do outro, como explicava o próprio Pedro Casaldáliga:

 

«Camponeses nordestinos, vindos diretamente do Maranhão, do Pará, do Ceará, do Piauí…, ou passando por Goiás. Desbravadores da região, “posseiros”. Povo simples e duro, retirante como por destino numa forçada e desorientada migração anterior, com a rede de dormir nas costas, os muitos filhos, algum cavalo magro, e os quatro “trens” de cozinha carregados numa sacola».

Pedro Casaldáliga

 

Pere Casaldàliga a una comunitat indígena de l'Araguaia

La parella Luiz Gouveia i Eunice Dias de Paula van ser uns dels primers a arribar el 1973. Van viure amb els indígenes de Tapirapé i encara avui hi viuen. Han fet de professors bilingües al poblat indígena, ajudant en la formació dels professors indígenes i, per això, són en molta part responsables del fet que la llengua Tapirapé encara existeixi.

 

Chegamos a um mundo sem volta. A Missão possuía 150.000 quilômetros quadrados de rios e sertões e florestas, ao noroeste do Mato Grosso, dentro da Amazônia denominada “legal”, entre os rios Araguaia e Xingu, incluindo também a Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo.

Sem outra “base” eclesiástica que a nossa casa, de 4×8, às margens do Araguaia, maravilhoso e turbo, sem saber por onde começar, sem saber quem habitava a região, onde as distâncias de todas as espécies justificavam todas as indecisões.

A única estrada que existia ainda estava se abrindo, vermelha e empoeirada, na selva e nos campos abertos que acabamos de atravessar, e a “onça” materialmente concreta tinha todo o direito de cortar a estrada em frente ao caminhão.

Havia apenas um médico na área, não havia correio, eletricidade, telefone, telégrafo, havia 3 jipes antigos por todo São Felix e eram os únicos carros no local.

Pedro Casaldáliga

 

Pedro faz o compromisso radical

 

Em pouco tempo, a problemática da terra, a pobreza e a violência contra peões e posseiros impactaram Casaldáliga e a sua equipe. Nos primeiros anos, enterraram centenares de trabalhadores rurais “muitas vezes sem nome” que tentavam sobreviver naquela terra. Foi lá que decidiram se comprometer radicalmente com o povo.

 

Mato Grosso foi, ainda é, um terra sem lei. Alguém o classificou como o «Estado curral» do país. Não encontramos nenhuma infraestrutura administrativa, nenhuma organização trabalhista, nenhuma inspeção. O Direito era a lei do mais forte. O dinheiro e o 38. Nascer, morrer, matar, eram os direitos básicos. Verbos conjugados com incrível facilidade.

Pedro Casaldáliga, 1971

 

A construção de uma igreja organizada e estruturada, começou primeiro com o atendimento das necessidades mais básicas: a saúde e a educação foram a prioridade. Como celebrar missa e administrar os sacramentos sem se comprometer ao mesmo tempo com as necessidades das famílias?

Aos poucos, conseguiram construir uma pequena escola (que, depois, daria luz a um projeto pedagógico que se tornaria referência da educação popular na Amazônia); organizaram um posto de saúde básica; fizeram de enfermeiros e…, nessa ação, se comprometeram a favor dos «posseiros» e se posicionaram contra o latifundio.

Uma igreja que rezava, que celebrava missa e administrava os sacramentos como qualquer outra, mas que se comprometia radicalmente na defesa dos mais pobres: posseiros, peões, ribeirinhos e Povos Indígenas. Nunca houve imposições nem intenção de evangelizar, no sentido antigo, arcaico, colonialista, da palavra.

 

Uma consagração bem diferente

 

Em julho de 1971, Casaldáliga recebeu a carta do Vaticano nomeando-o bispo. A resposta dele, de renuncia taxativa ao cargo, estava escrita e iria ser entregue ao Nuncio. Porém, reunidos a equipe pastoral junto ao Bispo Dom Tomás Balduíno, decidiram que Casaldáliga tinha que aceitar.

Era a única chance de dar voz aos sem voz; de fazer com que a situação nas fazendas fosse conhecida; de chamar a atenção internacional sobre uma problemática que o Brasil escondia. Ser uma “autoridade” da Igreja era a única opção para poder denunciar e não ter tantas represalias. A aceitação era obrigada.

Assim sendo, em decisão conjunta, o dia 23 de outubro, depois de uma tentativa de assassinato que falhou por pouco, Pedro Casaldáliga seria ordenado Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia.

«Ao ar livre, à beira do rio Araguaia», Pedro foi ordenado por Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia, Dom Tomás Balduino, bispo da Diocese de Goiás e Dom Juvenal Roriz, bispo de Rubiataba, GO.

Imatge d’un dels moments de l’ordenació episcopal de Casaldàliga. La celebració va ser a l’aire lliure i va assistir-hi tota la gent de São Félix do Araguaia.

 

Naquela noite de 23 de outubro de 1971, a abóbada celeste, as águas do Araguaia e todos nós que lá estávamos fomos testemunhas de que algo novo acontecia. Um bispo recusava as marcas do poder para mergulhar totalmente na vida do povo.

Antônio Canuto
Agente de Pastoral da Prelazia de São Félix do Araguaia

 

No cartão-lembrança de sua ordenação, Pedro declarava o bispo que seria:

«Tua mitra será um chapéu de palha sertanejo; o sol e o luar; a chuva e o sereno,
o olhar dos pobres com quem caminhas, e o olhar glorioso de Cristo, o Senhor.
Teu báculo será a verdade do Evangelho e a confiança do teu povo em ti.
O teu anel será a fidelidade à Nova Aliança do Deus Libertador e a fidelidade ao povo desta terra.
Não terás outro escudo que força da Esperança e a Liberdade dos filhos de Deus;
nem usarás outras luvas que o serviço do Amor.»

 

Targeta original de record que es lliurà als presents a l’Ordenació Episcopal de Casaldàliga, al riu Araguaia, el 23 d’octubre de 1971

 

A primeira denuncia mundial sobre a situação da Amazônia

 

no mesmo dia de sua sagração episcopal que publicou o documento que é um “um dos mais importantes da história da luta pela terra no Brasil”.

Mais de 80 páginas com dados estatísticos, referências e análises em que se colocava a gravidade da situação da Amazônia. O documento também apontava nomes de empresas e de responsáveis e relatava casos concretos. O documento de Casaldáliga fez que, pela primeira vez, o Brasil soubesse que havia trabalho escravo, exploração e assassinatos por conflitos de terra.

 

Jornais do Brasil relatam o impacto da carta

L’impacte del document de Casaldàliga, ara bisbe, va ressonar a tot Brasil

 

Na noite do dia em que assinei o documento – era noite de «luar» – saí para ver a grande lua, respirar o ar mais frio e me oferecer ao Senhor. Senti então que, com o documento, eu também poderia ter assinado a minha própria pena de morte; pelo menos, acabava de assinar um desafio.

De fato, alguns dias depois começou a chegar o aviso de um dos maiores proprietários de terras e garimpeiros do Brasil, tantas vezes depois repetido por muitos outros proprietários de terras, vozes eclesiásticas, «amigos»: não era para eu entrar nessas questões porque eles poderiam me acusar de subversivo; de fato, a polícia federal estava nos controlando; o vice-delegado de São Félix era um agente; o fazendeiros iriam me processar; etc.

Pedro Casaldáliga

 

Não havia volta atrás: a Prelazia de São Félix do Araguaia e o seu recém consagrado Bispo, optava pelos pobres e se colocava contra o latifúndio. Em cada gesto, em cada palavra e em cada documento.

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Esse é o documento que mudou a Amazônia

Esse é o documento que mudou a Amazônia

No mesmo dia de sua ordenação como bispo, Pedro Casaldáliga publicou um extenso documento denunciando a situação de escravidão em que vivia a maioria dos camponeses da Amazônia. O documento também questionou a hierarquia da igreja e nomeou os opressores…. A repressão logo desceu sobre ele e sua equipe. Logo, porém, esse documento mudaria a história da Amazônia.

 

No mesmo dia em que foi consagrado bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, 23 de outubro de 1971, Pere Casaldàliga publicou a primeira denúncia global sobre a situação da Amazônia.

O documento “Uma Igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” se tornaria um documento histórico. Impresso clandestinamente e distribuído na mídia brasileira, o documento significou uma virada na reivindicação e defesa dos povos indígenas, das famílias camponesas, do meio ambiente, da situação das mulheres e da luta pela terra.

Pela primeira vez um bispo manifestava aberta e publicamente a sua posição sobre o que estava acontecendo na Amazônia. Mas, além de dar a sua opinião, ao longo de mais de 80 páginas, Casaldáliga fornecia dados, analisava estatísticas, citava casos concretos e ouvia testemunhas do que estava acontecendo. Finalmente, esse Brasil continental -que vivia de costas para a distante Amazônia conhecia a realidade de exploração e violência que estava sendo imposta naquela região.

Como disse Berta Camprubí em seu artigo Pedro Casaldáliga, 90: Un día en la casa del obispo de los pobres, publicado em El Periódico de Cataluña:

 

Naqueles anos, as terras de Mato Grosso eram dominadas por títulos de terra sobrepostos, herdados principalmente da Lei de Terras de 1850, que distribuía ilegalmente territórios indígenas ancestrais, criando grandes propriedades, algumas com até 7.000 quilômetros quadrados. Eram terras de pistoleiros, de abandono legal e institucional. Ali, a violência era o método pelo qual todos os conflitos eram resolvidos. Casaldáliga enterrou muitos camponeses sem terra e povos indígenas naquela época.

 

Do que tratava concretamente o documento

 

Ao longo de 80 páginas cheias de casos e análises sociológicas que haviam sido realizadas naquela região, o documento pastoral do Bispo Pedro (Carta Pastoral) analisava rigorosamente a situação de escravidão e violência em que viviam os povos e comunidades da Amazônia; denunciava os problemas ambientais que estavam começando a ser percebidos como tais; e, sobretudo, revelava, com nome e sobrenome, os responsáveis pelo genocídio de indígenas e posseiros que os latifundiários estavam realizando com a cumplicidade do governo militar brasileiro.

 

Os primeiros pioneiros na região são os chamados “posseiros”(pessoas que não têm título de propriedade de suas terras). Eles vivem aqui há 5, 10, 15, 20 e alguns até 40 anos. Cultivo com os métodos mais primitivos, plantio de arroz, milho, mandioca. Pura agricultura de subsistência. Criação de gado. Sem cuidados de saúde e higiene, sem proteção legal, sem meios técnicos disponíveis. Eles se reúnem em pequenas aldeias, chamadas “Patrimonios” (que o estado lhes deu como terras virgens – Santa Terezinha, Porto Alegre, Cedrolândia, Pontinópolis) ou dispersas no campo a uma distância de 12 a 20 km umas das outras.
Pedro Casaldáliga, 1971

 

Nos anos 60 e 70, a Amazônia era o vasto território com o qual a ditadura brasileira estava obcecada em “desenvolver“. Era o território “selvagen” desconhecido pela maioria da população. Uma área equivalente à metade de toda a Europa que o governo brasileiro pretendia dividir entre seus amigos e as grandes empresas que apoiavam o regime.

Naquela época, quando quase ninguém falava sobre a causa indígena; quando a preocupação com o meio ambiente não estava na mesa de discussão; e quando a pobreza dos trabalhadores rurais, muitas vezes escravizados, era um assunto distante de qualquer foco da imprensa ou da Igreja, esta Carta-Documento Pastoral de Casaldáliga sacudiu o país, revelando as vergonhas do Brasil e os abusos da ditadura. A repercussão nacional da Carta-Documento foi um ataque direto à propaganda da ditadura. Pela primeira vez, a crueldade da situação econômica, social e ambiental da Amazônia foi internacionalizada.

Qual foi o impacto do documento?

 

O documento teve que ser impresso fora da região do Araguaia e isso foi possível graças, entre outros, à fiel colaboradora de Casaldáliga, a Irmã Irene Franceschini. Com estas palavras Maritxu Ayuso explicava como foi transportado o original da Carta-Documento:

 

Aquela mulher que, no meio da ditadura, levou a primeira carta pastoral de Pedro Casaldáliga como bispo dentro de uma caixa embrulhada em um lenço em um avião militar! Quando lhe perguntaram o que estava carregando, ela respondeu “remédios, algumas roupas, coisas sem importância… se você quiser abrir…”

A carta-documento do bispo Pedro ecoou na maioria dos jornais e publicações no Brasil e provocou uma revolução em meio à repressão militar.

 

Repercussão da Carta-Documento de Casaldáliga na mídia nacional

Jornais do Brasil relatam o impacto da carta

 

Após vários meses de rumores e calúnias, ameaças de prisão, ameaças de morte, “visitas” da polícia e do exército federal, (…) na primeira semana de setembro, o Sr. Ariosto da Riva, pai e mentor dos latifundiários, acompanhado por um padre, apresentou-se ao Núncio no Rio [de Janeiro] para tentar impedir minha consagração [como bispo]…

 

Naquela época, os interesses econômicos e os amigos do regime estavam se repartindo o centro-oeste do país às custas dos povos indígenas e do meio ambiente, e um bispo como Casaldáliga estava perturbando e colocando o foco da mídia sobre a Amazônia. De fato, como afirma o sociólogo José de Souza Martins (1995), “o documento de Casaldáliga é um dos mais importantes da história social do Brasil”.

 

Em sua carta pastoral de 1971, Casaldáliga propõe uma nova maneira de ver a situação da Amazônia [superexploração e falta de direitos dos trabalhadores rurais], faz uma longa e dura denúncia e inicia um trabalho pastoral consistente na Prelazia que começa primeiro pela desnaturalização desta violência e depois pela construção de uma rede de solidariedade entre os trabalhadores migrantes e a igreja local. Lucilene Aparecida Castravechi. XXVII Simpósio Nacional de História. Natal 2013.

 

O impacto da Carta-Documento provocou também a reação da Igreja Católica.De um lado, muitos se colocaram contra a posição de Casaldáliga, mas do outro, aquela denúncia provocou que outros documentos do mesmo caráter começassem a aparecer em diferentes regiões brasileiras. Dos bispos do noroeste veio o texto “Ouvi os gritos do meu povo”, em 1973. No mesmo ano, os bispos e missionários da Amazônia publicaram o documento urgente Y-Juca-Pirama. O índio: aquele que deve morrer”.

Mas foi somente dez anos após a denúncia de Casaldáliga, em 1980, que a CNBB [Conferência Episcopal Brasileira] se expressaria oficialmente sobre a situação que se vivia na Amazônia, publicando o documento intitulado “Igreja e problemas da terra“.

Leia a carta-documento original

 

No link a seguir poderá ler a Carta-Documento original, que se conserva no Arquivo da Prelazia de São Félix do Araguaia: “Uma Igreja da Amazônia me conflito como o latifundio e a marginalização social”.

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LANÇAMENTO: «Ventos de profecia na Amazônia»

LANÇAMENTO: «Ventos de profecia na Amazônia»

Qual é a relevância social, política e eclesial dos 50 anos da Prelazia de São Félix do Araguaia? Como um grupo de religiosos, religiosas e militantes confrontou os “donos de grandes latifúndios e o Estado ditatorial” e as “estruturas da própria Igreja”?

Conheça da mão de Antônio Canuto a organização interna, a ação política, a estrutura pastoral e o trabalho social que fizeram da Prelaiza de São Félix do Araguaia “uma referência obrigatória para a compreensão dos projetos econômicos e dos modelos de sociedade que estavam em disputa na Amazônia; bem como dos projetos eclesiais enfrentados”.

[Contato para venda: (62) 98640-0247]

 

«Desde seu nascedouro a Prelazia de São Félix colocou no centro de suas preocupações os graves crimes contra os povos indígenas, ribeirinhos, posseiros e outras populações tradicionais e a assustadora devastação da Amazônia.

Luta de Davi contra Golias, mas que foi levada adiante nas circunstâncias mais desfavoráveis, tendo contra si o governo militar e seu projeto de ‘ocupação’ e ‘desenvolvimento’ da Amazônia, a ferro e fogo, sem respeito algum ao povo que ali vivia, sem qualquer cuidado com a natureza e a preservação ambiental. O governo financiou a través da Sudam e ‘legalizou’ a ocupação do território pelo latifúndio, a derrubada da floresta e a sua conversão em pastagens.

A Prelazia tinha contra si todo o grande capital nacional e internacional fosse ele comercial, industrial, financeiro. O capital gozou de isenção de impostos, fartos subsídios, financiamentos generosos e todo o apoio militar, jurídico e o que mais necessário fosse para incentivar e depois acobertar seus crimes ambientais e humanos.

Conflictes per terra a l'Araguaia

Quadro da minissérie “Descalço sobre a terra vermelha”, de 2012.

 

A Prelazia também sofreu o ataque sistemático da imprensa escrita, rádio e televisão: jornais e revistas, canais de rádio e televisão, lançaram uma guerra constante de informações distorcidas, calúnias, mentiras e difamações acusando aquela Igreja de ser “contra o progresso” do país e vinculada a interesses estrangeiros que perseguiam a “internacionalização da Amazônia”.
 

A estratégia era que o grito abafado dos expulsos de suas terras, dos indígenas deslocados ou dizimados, atingisse a opinião pública e sensibilizasse o restante da Igreja e da sociedade.

 
Tudo o que aconteceu na Prelazia de São Félix foi um “trailer” do desastre anunciado que se espalharia pela Amazônia nos anos posteriores, com uma diferença notável: na Prelazia houve, desde o início, a denúncia documentada dos excessos sociais e ambientais sofridos e também da resistência corajosa dos pequenos camponeses com o apoio da Igreja local. A estratégia foi que o grito abafado dos expulsos de suas terras, dos indígenas deslocados ou dizimados, atingisse a opinião pública e sensibilizasse o restante da Igreja e da sociedade.

A Prelazia esteve na frente ou ao lado das principais iniciativas contra essa situação ecocida em relação à terra, à água e à mata; etnocida em relação aos indígenas, genocída em relação aos posseiros e ribeirinhos.»
 

“Ventos da Profecia na Amazônia” quer eliminar o risco de perder a memória subversiva do que significou para a Igreja e a sociedade, a profecia da Prelazia de São Félix do Araguaia.

 

Portada de l'edició brasilera: «Ventos de profecia na Amazônia»

Capa do livro «Ventos de profecia na Amazônia»

 

O livro está dividido em 5 partes:

1. Na primeira conheceremos como era a presença da igreja na região do Araguaia e como foram seus primeiros contatos com indígenas, antes da chegada dos missionários claretianos, que assumiram a missão católica.

2. Na segunda parte o livro poderemos ficar por dentro dos detalhes da criação e instalação desta nova Prelazia, da nomeação e ordenação episcopal de Pedro Casaldáliga. Também aprofundaremos no processo de repressão e perseguição sofrido por esta igreja nos primeira década de sua existência, perseguição provinda dos governos militares da ditadura. O livro narra como a atuação desta Igreja com seu bispo incomodavam o Vaticano.

3. Na terceira parte, descobriremos como era a organização interna desta igreja, as equipes pastorais que reuniam bispos, padres, religiosas leigos e leigas todos, homens e mulheres, com direito a voz e voto nas decisões, as assembleias do povo e a avaliação pastoral feita sobre o trabalho desta igreja.

4. Na quarta parte conheceremos as ações pastorais, sociais e políticas da Prelazia: no campo da comunicação com seu boletim mensal Alvorada, no campo da educação popular e indígena; da cultura, da saúde e da militância em prol dos direitos humanos. conheceremos as estratégias seguidas na formação e ação na esfera política e social.

5. A última parte poderemos aprofundar na renúncia por idade de Pedro Casaldáliga, apresentada aos 75 anos, e na angustiada espera pela nomeação de seu sucessor até a chegada, finalmente, do novo bispo em 2005.

O prólogo, de Óscar Beozzo, termina dizendo:

“Parabéns ao seu autor, Antônio Canuto, e meu profundo agradecimento por ter recuperado a história da Prelazia de São Félix do Araguaia, inserido na caminhada da Igreja do Brasil e companheira e parceira de tantas outras Igrejas da Grande Pátria LatinaAmericana, paixão e compromisso de uma vida, de Pedro Casaldáliga.”

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Iª Semana Pedro Casaldáliga

Iª Semana Pedro Casaldáliga

[Programação dos eventos destacados no final da página]

No dia 8 de agosto de 2021 se completa um ano da morte de Pedro Casaldáliga. Seu corpo descansa agora no Cemitério Karajá, em São Félix do Araguaia, onde ele próprio enterrou “centenas de trabalhadores braçais e indígenas, muitas vezes sem nome e quase sempre sem caixão”.

Pedro, porém, sempre dizia que “vamos de vivos a ressuscitados” e por isso temos a certeza de que ele agora vive em cada um e uma de nós e em cada uma das causas, das lutas, às quais dedicou a sua vida.

Nascido em Balsareny, na Catalunha, em 1928, Pedro Casaldáliga ou Pere Casaldàliga em catalão, ingressou na Congregação dos Claretianos muito jovem e, poucos anos depois de ser ordenado sacerdote no Castelo de Monjuïc em Barcelona, ​​já com 40 anos, partiu para a Amazônia brasileira para fundar uma “missão” claretiana.

À beira do Rio Araguaia, na enorme área que do Mato Grosso que faz divisa com o Tocantins e o Pará, Pedro encontrou uma região “esquecida” onde a única lei era “a lei de 38”. Os grandes latifundiários, apoiados pelo governo militar, tinham criado um ‘estado’ baseado na violência, na escravidão e na repressão aos povos indígenas e aos pequenos camponeses. A falta de saúde, de educação, de judiciário ou qualquer estrutura pública desencadeou uma série de conflitos por causa da terra que deixaram centenas de mortos, feridos e refugiados.

Conflictes per terra a l'Araguaia

Fotograma da minisérie ‘Descalço sobre a Terra Vermelha’ lançada em 2014.

 

Casaldáliga ficou do lado dos sem-terra e dos povos indígenas e tornou públicas várias denúncias sobre a situação de exploração na Amazônia, que abalaram o Brasil: perseguição, prisão e tortura logo caíram sobre Casaldáliga e seus colaboradores. Os setores conservadores da igreja católica também conspiraram contra aquela recém criada Prelazia de São Félix do Araguaia, a mais de 1.200 quilômetros ao norte de Brasília.

O legado de Pedro Casaldáliga é universal. Suas lutas são agora assumidas por muitos, muitas. É um guia e um farol para esses tempos.

Casaldáliga sempre foi fiel aos seus ideais, foi coerente com o seu pensamento até ao fim. Além disso, impulsionou e criou diversos movimentos sociais no Brasil, que hoje são referência na luta em favor dos trabalhadores rurais e dos Povos Indígenas. Conseguiu fazer com que na região de sua Prelazia mais de 14.000 famílias tenham hoje um pedaço de terra para morar e graças a ele, entre outros, hoje o combate ao trabalho escravo e os direitos trabalhistas são políticas públicas consolidadas. Casaldáliga criou uma igreja-comunidade participativa, aberta e plural, onde as decisões eram tomadas em assembleia. Além disso, sua influência, visão e perseverança foi essencial para que a CNBB se posicionasse inúmeras vezes contra a exploração do grande capital.

Por isso, no primeiro aniversário da sua Páscoa, a cidadezinha onde nasceu, Balsareny, no interior da Catalunha, e a cidade à qual dedicou metade da sua vida, São Félix do Araguaia, vão acolher várias celebrações com um lema comum: A esperança e a luta pela libertação.

No Brasil, destacamos:

RODAS DE CONVERSA ON-LINE

02/8 – Pedro e a Educação – Carlos Brandão e Mirian Fabia
03/8 – Pedro e a Terra – Dom Ionilton e João Pedro Stédile
04/8 – Pedro e os Povos Indígenas – Lala e Giba
05/8 – Pedro e as Relações de Gênero – Ivone Gebara e Rezende Bruno
06/8 – Pedro e a Democracia Chico Whitaker e Pedrinho de Oliveira

Todos os dias às 19h, no canal de YouTube da Irmandade dos Mártires da Caminhada.

 
CELEBRAÇÕES EM SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA

Do dia 06/8 ao dia 15/8 | 19:00h – Santa Missa | Festejos da Padroeira Nossa Senhora da Assunção
08/8 | 20:30h – Oficio Divino das Comunidades | Visita ao túmulo | Abertura da Exposição “Memórias”
10/8 | 20:30h – Lançamento do livro do Centro de Direitos Humanos Dom Pedro
12/8 | 20:30h – Lançamento do livro «Ventos de profecia na Amazônia: os 50 anos da Prelazia de São Félix do Araguaia»
15/8 | 19:00h – Missa da padroeira Nossa Senhora da Assunção, no cais da cidade.

Lives e mais informações no Facebook da Paróquia Nossa Senhora da Assunção de São Félix.

 
PROGRAMAÇÃO DAS CEBs

08/08 | 15:00h – Um ano da Páscoa de Pedro
CEBs São João Batista – Rua Padre Manoel Campelo, 88 – Vila Perus – São Paulo (SP)
08/08 | 09:00h –  Um ano da Páscoa de Pedro
CEBs Sorocaba – Praça Alexandre Vannuchi Leme – Sorocaba (SP)

 
E na Espanha terá:

08/08 | 19:30h –  Celebração Pascal e atividades culturais no Castelo de Balsareny.
08/08 | 22:00h – Noite temática sobre Pedro Casaldáliga na TV Catalunha (Canal 33).

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Barcelona agradece “a utopia fértil” de Casaldáliga

Barcelona agradece “a utopia fértil” de Casaldáliga

“Pedro semeou. Isso é uma evidência”. É uma das muitas frases que nesta segunda-feira à noite evidenciaram que o legado de Pedro Casaldáliga ainda está muito vivo. Duzentas pessoas se reuniram em Barcelona na véspera do Dia de São Pedro para agradecer a maestria do antigo bispo de São Félix do Araguaia. Com uma memnsagem compartilhada: o mundo continua estando ferido e é necessário ser um militante da esperança.

Poucos líderes religiosos conseguem reunir pessoas de tão diversa procedência. De fato, ninguém achou estranho que nesta segunda-feira se falasse do “Reino de Deus” na Praça do Rei de Barcelona. Uma promessa evangélica que norteou a vida de Casaldáliga na construção da justiça e da paz para todos. Um Reino de Deus a ser construído “aqui e agora”, como sublinharam os jornalistas Antoni Bassas e Mònica Terribas, apresentadores desta homenagem cívica. Um evento organizado pela Prefeitura de Barcelona, a Associação Araguaia e a Fundação Pedro Casaldáliga que foi transmitido ao vivo e pode ser recuperado aquí.

Um dos vídeos projetados durante a homenagem recordou o testamento vital de Dom Pedro: “Optem, optem verdadeiramente pelos pobres, escolham uma Igreja-comunidade, de irmãos e irmãs iguais, sem poder”, disse. Dezenas de representantes de diversas entidades, amigos e companheiros ativistas, desde a Catalunha até o Mato Grosso, destacaram sua vida simples e coerente. Todas as testemunhas descreveram o “privilégio” de ter conhecido uma pessoa excepcional. Exemplo honesto, referência ética para os incrédulos. Como disse o jornalista e ativista social David Fernández: “Pedro Casaldáliga será sempre uma utopia fertil; as coisas bem feitas, as verdadeiras, duram para sempre”.

“Muito obrigado a todas as entidades amigas que assumiram a causa de Pedro como um instrumento transformador para toda a sociedade”, disse Gloria Casaldáliga, presidente da nova Fundação Pedro Casaldáliga. “Sabemos que vivemos tempos complexos e que a tarefa não será fácil”, afirmou, lembrando as dificuldades que o Brasil e a região do Araguaia enfrentam.

Estiveram também presentes o ator Eduard Fernández, o teólogo e colaborador da Agenda Latino-americana Jordi Corominas, a artista catalã-brasileira Priscila Barbosa, assim como as vozes do ativista Arcadi Oliveres, pouco antes de sua morte, o capuchinho Michael Moore, o abade de Montserrat, Josep Maria Soler, a dominicana Lucía Caram ou a atriz Núria Valls, entre outros amigos e colegas de Casaldáliga.

Como religioso, como bispo no Brasil, como poeta universal, Pedro sempre defendeu os direitos dos agricultores e dos sem-terra. E ele o fez sempre com sensibilidade poética, com tenacidade e também com senso de humor. “Aos meus católicos na Catalunha: devemos levar a Igreja com um pouco de bom humor”, disse ele. E, sobretudo, sustentada na esperança, o eixo desta nova homenagem conjunta.

A homenagem contou com a presença de uma boa representação de missionários claretianos na Catalunha, como Joan Soler, da Associação Araguaia, o provincial de San Pablo, Ricard Costa-Jussà, o delegado na Catalunha, Máximo Muñoz, o presidente da ONG Contato Solidario , Josep Roca, e a diretora do Casal Claret em Vic, Anna Larios. Também houve representações políticas, como a prefeita de Balsareny, cidade natal de Casaldàliga, Noelia Ramírez, e Albert Batlle, vereador da Câmara Municipal de Barcelona. Além de parentes de Casaldáliga e personalidades e entidades amigas, como M. Victoria Molins da Teresia, o delegado de Manos Unidas Barcelona, ​​Mireia Angerri, Eudald Vendrell, Miquel Torres e Josep Maria Fisa, presidente, diretor e conselheiro de Justiça e Paz Barcelona respectivamente, Xavier Garí em nome da organização Cristianismo e Justiça.

Texto de Laura Mor, publicado primeiro em Catalunya Religió.

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Homenagem a Pedro Casaldáliga

Homenagem a Pedro Casaldáliga

A Prefeitura de Barcelona, ​​a Associação Araguaia e a Fundação Pedro Casaldáliga celebram uma homenagem conjunta a Pedro Casaldáliga na cidade de Barcelona. O evento será realizado na próxima segunda-feira, dia 28 de junho.

Apresentado pelos jornalistas Mònica Terribas e Antoni Bassas, contará com a participação dos atores Eduard Fernàndez, Clara Segura e Núria Valls, além da artista catalã-brasileira Priscila Barbosa.

A palavra direta, clara e sempre lúcida de Casaldáliga será a protagonista principal, acompanhada ao piano pelo músico Carles Cases e acochegada por dezenas de testemunhas que trabalharam com ele e que o conheceram profundamente, do mundo todo.

Casaldáliga foi uma das referências mais importantes na luta pela terra e a favor dos Povos Indígenas da Amazônia. Desde sua morte em 8 de agosto e devido à pandemia, as entidades convocadoras não puderam se despedir deste claretiano internacional como gostariam. Portanto, uma vez que as restrições o permitem, e coincidindo com a véspera de São Pedro, este ato de memória será realizado aberto ao público.

Devido à situação atual, haverá ainda limitações de capacidade, mas o evento completo poderá ser acompanhado ao vivo no site da Fundação Pedro Casaldáliga (www.fperecasaldaliga.org), em sua conta no Facebook e no canal YouTube da Prefeitura Municipal de Barcelona.

Em 26 de março de 2021, o plenário da Prefeitura Municipal de Barcelona aprovou por unanimidade a entrega da Medalha de Ouro pelo Mérito Cívico, postumamente, a Pedro Casaldáliga “em reconhecimento à sua luta permanente contra os abusos de poder e a exploração, e pelo seu firme compromisso com a justiça social, a igualdade e a dignidade dos Povos Indígenas”.

 

Fundação Pedro Casaldáliga

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