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30 de julho, chegamos a um outro mundo

28 julho 2023

No dia 30 de julho de 1968, Pedro Casaldáliga e Manuel Luzón chegaram a São Félix do Araguaia após mais de uma semana de viagem de caminhão. Seu objetivo era fundar uma missão claretiana na Amazônia, mas acabou sendo a “missão” de suas vidas. Casaldáliga nunca mais voltou à Catalunha e a terra vermelha do Araguaia se tornou sua terra. Este é o seu testemunho.

 

Fragmento do livro “Yo creo en la justicia y la esperanza”, de 1975, que você encontra gratuitamente em espanhol em nosso site, clicando em AQUI

 

No dia 26 de janeiro de 1968, Manuel e eu trocamos os 11 graus abaixo de zero em Madri pelos 38 graus acima de zero no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Foi um salto para o vazio do outro mundo. Consegui, enfim, o que eu sonhava, pedia e procurava, com insistência, durante todos os dias da minha vida vocacional: “as Missões”, um clima heroico para viver heroicamente – disse-me então, ingênuo e teimoso e, talvez, fiel.

A Missão tinha 150.000 quilômetros quadrados, de rios e sertões e floresta, no noroeste de Mato Grosso, dentro da chamada Amazônia “legal”, entre os rios Araguaia e Xingu, incluindo também a Illa do Bananal que é o maior rio ilha do mundo. Sem outra “base” eclesiástica que não a nossa casa, 4 por 8, às margens do Araguaia, maravilhosa e turva. Sem sabermos por onde começar, sem sequer saber quem habitava a região, onde distâncias de todo tipo justificavam todas as indecisões.

A única estrada que existia ainda se abria, vermelha e poeirenta, na selva e nos campos abertos que havíamos acabado de atravessar, e a “onça”, materialmente concreta, tinha todo o direito de nos abrir caminho, na frente do caminhão. Não havia médico na área. Não havia correio, luz elétrica, telefone ou telégrafo. Havia 3 jipes velhos em todo o povoado de São Félix e eram os únicos carros no local. A professora mais qualificada era uma negra generosa, com apenas um ano e meio de ensino fundamental, muitas vezes bêbada, que já havia lecionado ali, protegida de onças e índios por homens armados postados na porta da escola de palha.

Una de les primeres imatges de l'arribada de Pere Casaldàliga i Manuel Luzón a l'Araguaia, al juliol de 1968

Uma das primeiras imagens da chegada de Pedro Casaldáliga e Manuel Luzón ao Araguaia, em agosto de 1968

 

A gente viu de perto a presença múltipla e avassaladora de doenças e mortes na região. Verminose, desidratação, malária, hepatite, tétano umbilical, todos os tipos de doenças de pele… Desnutrição, doença crônica.

Em 15 de agosto, eu escrevi no meu diário:

«Talvez aqui precisamos mais do que nunca do diálogo interior em meio a esses silêncios»… «Chegamos à Missão em 30 de julho e já pensei e senti e temi muitas coisas. Dos homens, da natureza, de Deus…»

Nos primeiros meses, Manuel e eu atuamos como enfermeiros, percorrendo cegamente as listas de “contra-indicações”. E pudemos ver de perto a presença múltipla e avassaladora de doenças e mortes na região. Verminose, desidratação, malária, hepatite, tétano umbilical, todos os tipos de doenças de pele… Desnutrição, doença crônica. Na primeira semana de nossa estada em São Félix, quatro crianças morreram e caixas de papelão, como sapatos, foram deixadas na porta de casa a caminho daquele cemitério do rio onde mais tarde teríamos que enterrar tantas crianças – cada família tem três, quatro, filhos falecidos – e tantos anciãos – mortos ou matadas -, muitas vezes sem caixão e até sem nome.

«Eles escutam a gente – escrevi no meu diário – às vezes sorriem, quase sempre ficam em silêncio. Quanta distância têm as minhas palavras de sua alma simples e elementar, endurecida pelo sofrimento e pelo abandono?»

…são pessoas sempre carregadas, que são levadas pela maré da pobreza, da solidão, do crime, próprio ou alheio… (do crime coletivo da injustiça social!)… Gente simples, gente que carrega a cruz. .. Estes são – apesar de tudo o que se pode dizer contra – os pobres do Evangelho”.

Pere Casaldàliga amb els indis Xavante tot just havent arribat a l'Amazònia

Pedro Casaldáliga e Manuel Luzón, com os índios Xavante recém-chegados à Amazônia, agosto de 1968.

 

Foi necessária uma revisão total dos critérios e programas. Por onde começar? O que o povo precisa? O que poderíamos fazer? Como era ser uma Igreja ali? Tínhamos uma igreja feita de barro e uralita, à mercê dos ventos. E muita superstição. E o antigo costume das “desobrigas” ou visitas de cumprimento da Páscoa que os Padres faziam nos campos abertos do Norte e Centro-Oeste, de onde vinham os habitantes da região. Nós mesmos devemos continuar com esses socorros durante o primeiro ano e meio da Missão; para conhecer a terra e a cidade que nos tinha chegado em herança sacerdotal. Ainda não acreditando na eficácia apostólica desses “elogios” em que cento e tantos animais, centenas de pessoas, casamentos em fuga, batizados, confissões, sequestros de meninas, embriaguez, fachadas, tiros…

Nascer, morrer e matar….esses eram os direitos básicos, os verbos conjugados com surpreendente naturalidade.

Foi nessas “desobrigas” que começamos a sentir o problema da terra. Ninguém tinha sua própria terra. Ninguém tinha um futuro garantido. Todo mundo era “posseiro”, emigrante de outras áreas do país já ocupadas pelo latifúndio. Vinham todos do Nordeste, do Norte, com seus 8 ou 10 filhos, procurando as terras “gerais” sem dono, e um dia atravessaram o Araguaia como quem atravessa o Mar Vermelho em busca da Terra Prometida.

Mato Grosso era, ainda é, uma terra sem lei. Alguém o havia classificado como o “estado curral” do país. Não havia infraestrutura administrativa, nem organização trabalhista, nem fiscalização. O direito era a lei do mais forte ou do mais selvagem. O dinheiro e o 38 comandavam a região. Nascer, morrer, matar,…esses eram os direitos básicos, os verbos conjugados com surpreendente naturalidade.

A sede da prefeitura de São Félix fica, ainda hoje, a 700 quilômetros daqui, em Barra do Garças. Às vezes parece que não existimos… O analfabetismo prevaleceu. E a educação dos filhos, como saída para um futuro sonhado diferente do triste destino dos pais, interessava mais ao povo do que o próprio direito à terra e à alimentação. Desde o primeiro momento de nossa chegada, fomos inundados de demandas: íamos ensinar, construir uma escola, organizar um internato, poderíamos até ficar com filhos de estranhos, adotá-los e educá-los… A presença de padres ou irmãs que não abordassem este problema era impensável.

Pedro Casaldáliga, 1975

 

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