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As 7 atitudes necessárias para viver a «Ecologia Integral»

As 7 atitudes necessárias para viver a «Ecologia Integral»

As 7 atitudes necessárias para viver a «Ecologia Integral»

Estas são algumas das pistas essenciais para alcançar “transformações da consciência”.

Atitudes profundas que emergem de outra visão sistêmica, inteiramente ecológica, que ajuda a salvar a vida e o planeta.

14 de abril de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

1. SUPERAR O AMBIENTALISMO

Em geral, muitas pessoas, empresas, ONGs e até governos estão preocupadas/os com o meio ambiente e a ecologia. São as que costumamos chamar de ambientalistas, comprometidas/os com a preservação do meio ambiente, da natureza, do planeta… Chamamos de “ambientalismo” essa atitude que, felizmente, está crescendo nos últimos anos. Porém, agora urge ir além do ambientalismo e passar a uma atitude de “ecologia integral”. Qual é a diferença entre as duas?

Ambientalismo, atitude ecológica incompleta

Os ambientalistas atuam como bombeiros, apagando incêndios: hoje reivindicam que um parque seja declarado nacional, amanhã protestam contra a construção de uma represa, no dia seguinte contra a mina e assim por diante. É ótimo que façam isso! Uma ação essencial, porém não é suficiente e não resolve os problemas; simplesmente cura sintomas, embrulha em esparadrapos, permitindo que o problema principal, a causa mais profunda, continue.

Vista do rio Araguaia ao passar por São Félix do Araguaia, no estado de Mato Grosso, Brasil.

A atitude superficial identifica os problemas ecológicos naquilo que impede o funcionamento da “sociedade moderna desenvolvida” (esgotamento ou contaminação dos recursos naturais, desastres, etc)

A atitude superficial identifica os problemas ecológicos naquilo que impede o funcionamento da “sociedade moderna desenvolvida” (esgotamento ou contaminação dos recursos naturais, desastres, etc). Não quer questionar o mito o desenvolvimento ilimitado, do crescimento econômico constante…

Assim, mentalmente, o ambientalismo continua dentro do sistema, derivado da mesma mentalidade que causou os problemas ecológicos. Propõe uma política de soluções que não erradicam o mal, mas simplesmente tratam de aliviar as consequências e, com isso, o prolongam.

Atitude ecológica radical

Outra atitude é a de cunho radical, pois quer ir à raiz do problema. As várias correntes ecológicas com essa orientação se assemelham ao identificar a raiz nas ideias e representações que possibilitaram a depredação da natureza e levam o mundo ocidental à autodestruição.

Esta é a raiz do problema, porque é a raiz do sistema que o causou.

Por isso, os ecologistas propõem lutar por uma mudança nas ideias profundas que sustentam nossa civilização e configura a forma de relação com a natureza, relação que levou ao desastre atual e a uma possível catástrofe.

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A atitude ecológica radical implica uma crítica aos fundamentos culturais do Ocidente. Questiona fundamentalmente:

a) a primazia absoluta que damos aos critérios econômico-materiais para medir a felicidade e o progresso;

b) a crença na possibilidade de um crescimento constante e ilimitado na economia, em luxos e na população humana, como se não houvesse limites ou não os estivéssemos ultrapassando;

c) a crença de que a tecnologia e o crescimento solucionarão todos os problemas;

d) o absurdo de uma economia que quantifica tudo, exceto os gastos ecológicos e, sobretudo, a ignorância quanto à complexidade da vida, a sacralidade da matéria e a força espiritual do Universo.

A forma tradicional de pensar e o paradigma antiquado, que tem raízes filosóficas e até religiosas, posicionaram-nos historicamente em guerra contra a natureza, contra a biodiversidade, contra os bosques, os rios, a atmosfera, os oceanos.

Somente mudando a forma velha de pensar nos reconciliaremos com o planeta. Se não erradicamos a forma de pensar, razão pela qual estamos destruindo o planeta, as atitudes ambientalistas serão inúteis, apagando incêndios causados por uma mentalidade, deixando que siga em pé a mentalidade velha, causando desastres ecológicos todos os dias.

A maioria dos incêndios na Amazônia são provocados para “abrir” novas áreas de criação de gado ou de plantio de soja, destruíndo vegetação milenar e contaminando a atmosfera. Fotografia: no assentamento Dom Pedro, aqui no Araguaia. Queimada de 2019.

Visão holística

Uma visão nova, não antropocêntrica, mas holística: o ponto de vista agora é a partir do todo (natureza), e não a partir da parte (o ser humano). E acreditamos na primazia do todo sobre a parte. 

O humanismo clássico postulava que o ser humano era o único portador de valores e significado e que todo o resto era matéria bruta a seu dispor. É uma visão enormemente equivocada, que nos colocou contra a natureza e que precisa ser erradicada.

Somente se abordarmos uma “reconversão ecológica” de nosso estilo de vida, de nossa mentalidade, incluída a espiritualidade, estaremos no rumo do “retorno à Casa Comum”, à Natureza da qual nos exilamos indevidamente em algum momento do passado..

Captar as razões mais profundas, os motivos que vão à raiz e descobrir a ecologia como caminho integral de sabedoria para a própria realização pessoal, social e espiritual significam chegar a descobrir a “ecologia integral”, para viver a comunhão e a harmonia com tudo o que existe e tudo o que somos em plenitude, sabendo-o e saboreando-o, de forma integralmente ecológica, sem recair em atitudes breves, simplesmente ambientalistas, no meio do caminho.

Somente se abordarmos uma “reconversão ecológica” de nosso estilo de vida, de nossa mentalidade, incluída a espiritualidade, estaremos no rumo do “retorno à Casa Comum”, à Natureza da qual nos exilamos indevidamente em algum momento do passado.

2. UMA NOVA COSMOLOGIA

O mundo que conhecemos hoje é totalmente diferente do mundo que pensávamos que era. É um “outro mundo”. E por causa disso, nós, que somos parte e resultado dessa nova visão de mundo, acabamos sendo algo diferente do que pensávamos.

A partir da nova visão que a ciência torna possível hoje em dia – pela primeira vez na história da humanidade –, é preciso agora “reconverter tudo”, reelaborar e reformular aquilo em que até agora acreditávamos – nossa ideia do mundo, do cosmos, da matéria, da vida, de nós mesmos, do espiritual. Tudo é diferente a partir da nova visão.

Temos que nos reinventar, recriar, é hora de reconverter a partir de uma nova visão da ecologia integral.

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3. UMA NOVA VISÃO DO MUNDO

As pessoas e a sociedade ainda são portadoras da visão tradicional de mundo, que o concebia como um aglomerado de objetos (não comunidade de seres vivos, nem mesmo como um quase organismo vivo).

Durante os últimos séculos, foi inteiramente dominante a divisão cartesiana da realidade em coisas materiais, extensas (físicas, inanimadas, materiais, organizadas mecanicamente) e entidades espirituais, pensantes, com consciência, incorpóreas.

Todo o mundo extenso estaria composto de matéria, essa realidade física compacta, inanimada, passiva, sem vida, estéril por si mesma. Os animais não deixariam de ser máquinas bem organizadas, porém desprovidas de entidade mental ou espiritual. Tudo seria objeto, todo um mundo de objetos, no que estaríamos decepcionantemente sozinhos, sem ninguém com quem partilhar fora de nós mesmos.

Há somente uma árvore genealógica no planeta, que agrupa e inclui todos os seres vivos (humanos, inclusive).

Outra visão da vida

A visão tradicional que temos dos demais seres vivos é de seres inferiores, classificados em espécies e famílias separadas, “criadas” de um modo fixo e estável desde o princípio, independentes, sem parentesco. Hoje, as ciências ecológicas dão uma visão totalmente diferente.

Sem que saibamos ainda se a vida brotou em nosso planeta ou chegou aqui trazida por meteoritos, o que parece certo é que toda a vida do planeta está emparentada. Somente uma, porque é a mesma, mas evoluída com uma criatividade inimaginável.

Não existem famílias vegetais e animais soltas, independentes, que partilham somente aparências externas. Na verdade, todos os seres vivos são membros de uma mesma e única família. Há somente uma árvore genealógica no planeta, que agrupa e inclui todos os seres vivos (humanos, inclusive).

A biosfera

Não é um aglomerado de seres vivos amontoados na superfície do planeta. Mas uma rede de sistemas, de sistemas de sistemas, interdependentes, retroalimentados, que dependem de interações de variáveis sutis que mantêm estáveis os equilíbrios do que depende o bem-estar comum.

A hipótese “Gaia”, de James Lovelock, fez pensar: o planeta azul, revestido da capa sutilíssima de vida, a biosfera, está vivo, a seu modo; porém mantendo o substancial do que chamamos “ser vivo”: uma capacidade auto-organizativa e autorreguladora que permite a continuidade estável da vida dentro de seus limites, sem deteriorar-se, mantendo-se contra o tempo.

Para os povos indígenas, a separação entre pessoa-sociedade-natureza-cultura-espiritualidade é impensável. Tudo está relacionado e faz parte do mesmo conjunto. Fotografia: menino do Povo Xavante, na aldeia Marãiwatsédé. Articulação Xingu Araguaia (AXA).

4. UMA NOVA VISÃO DE NÓS MESMOS

Desde muito tempo atrás, os seres humanos nos consideramos como “outra coisa”, algo diferente de tudo o que existe no mundo, seres infinitamente superiores, e por isso com direito ao domínio absoluto sobre tudo o que existe na Terra.

Viemos de cima (de Deus), não de baixo (da Terra); de fora deste mundo (somos espirituais e imortais), não de dentro. Porém, as modernas ciências cosmológicas veem as coisas de outro modo.

Para compreender e expressar isso, criamos crenças e mitos religiosos com fins de “justificação”: teríamos sido criados por Deus separadamente, no sexto dia da criação, “à sua imagem e semelhança”; apenas nós. Viemos de cima (de Deus), não de baixo (da Terra); de fora deste mundo (somos espirituais e imortais), não de dentro. Porém, as modernas ciências cosmológicas veem as coisas de outro modo:

Somos terra

Não viemos de fora, mas de dentro: ou seja, viemos da terra. Nosso corpo é feito de átomos de elementos que não são eternos, com data de fabricação, elaborados pelas estrelas, na explosão das supernovas, que permitiram a aparição – pela primeira vez – do cálcio para nossos ossos, do ferro para nosso sangue, do fósforo para nosso cérebro.

Não viemos de cima, não caímos como um pacote pronto e preparado, mas somos uma espécie emergente, formada por evolução a partir de outras que nos antecederam.

• Nosso corpo, observado com olhos ecológicos que saibam ver, fala claramente de uma longa história evolutiva, de cujos êxitos ela guarda marcas em quase cada um de seus traços.

Nossa reflexão, nossa espiritualidade, e talvez a atual secularidade e pós-religiosidade são a evolução da Terra e da Vida além da evolução biológica e genética, além da evolução cultural. É a Terra e a vida que lhe dão alento, que vivem e se expressam em nós e nos transcende.

Questionarmos tudo isso e requestionarmos a velha forma de nos percebermos separados do mundo, superiores a ele, alheios a tudo o que é cósmico e ecológico significam que estamos voltando à nossa casa, ao nosso lar ecológico, de onde nunca deveríamos ter partido. É voltar a pôr os pés na Terra, no solo da Vida.

No assentamento Dom Pedro, a 100 km de São Félix do Araguaia, estamos construíndo um modo de vida junto à natureza. Cerca de 100 famílias fazem parte deste projeto. Fotografia: Associação ANSA

5. NOVA VISÃO, TAMBÉM DA ESPIRITUALIDADE

A Ecologia Integral é uma forma de observar (paradigma) que incorpora o marco da natureza: considerados parte da natureza, do mundo, da realidade cósmica. Também aquilo que é espiritual e religioso? Sim. Tudo.

Tradicionalmente nem sempre foi assim. Considerava-se que o espiritual era totalmente diferente do mundo material. O espiritual era o não material, o não corpóreo, o não terrestre. Acreditávamos que o espiritual pertencia a outro mundo, o mundo celestial, chamado de sobrenatural. O dualismo era considerado dado, separação radical entre os dois âmbitos.

A Eco-espiritualidade produz um sentido de pertencimento à Natureza, à Terra, à Vida, ao Universo, ao Todo Misterioso.

Ecoespiritualidade: experiência espiritualual

A ecoespiritualidade não é um saber intelectual, um conjunto de ideias, mas um saber-sabor cordial, processado com a inteligência ecossensível, com o coração.

É uma experiência de admiração extasiada da beleza assombrosa do cosmo percebida como verdadeira epifania do mistério.

Experiência contemplativa, transformadora, unitária, regozijante e, ao mesmo tempo, de êxtase, que nos extrai de nós mesmos e nos transporta a um mundo inefável. Ela produz um sentido de comunhão no dual (não estamos separados do Mistério, que nos arrebata e extasia), e com ele um sentido de pertencimento à Natureza, à Terra, à Vida, ao Universo, ao Todo Misterioso.

Não é preciso nos afastarmos do mundo (ao contrário!) e nem nos submetermos a um processo de iniciação complicado: tudo isso está ao alcance de qualquer um que o realize.

Ecoespiritualidade e práxis

Ver e sentir de outra forma leva, inevitavelmente, a agir de forma diferente. Olhos que veem, coração que sente e mãos que atuam. Sentirmo-nos pertencentes à Terra nos leva a defendê-la como se fosse o próprio corpo, como a nossa Casa Comum.

Recuperar uma espiritualidade ecocentrada, livre da alienação milenar que fez nos sentirmos mais como filhos do céu do que da Terra, a única esperança para salvar a Vida e o Planeta, porque deixaremos de destruir a Terra apenas quando sentirmos seu caráter sagrado, e nos sintamos integralmente parte de seu Corpo divino.

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6. RECONVERSÃO ECOLÓGICA E REVOLUÇÃO CULTURAL

A cada dia, os meios de comunicação apelam ao “crescimento econômico”, como o único que importa. Crescer na renda econômica, no dinheiro, à custa do que quer que seja. É um discurso hegemônico em nossa sociedade.

Como no conto de Andersen: já tem bastante gente que intui o que é falso, que é precisamente o contrário do que estamos necessitando – não tanto crescer, quanto simplesmente desenvolver-nos, quer dizer, organizar-nos melhor, distribuir mais equitativamente, e deixar de destruir nosso próprio habitat, cuidar de nosso nicho ecológico, romper com hábitos e luxos supérfluos e daninhos. E, sobretudo, mudar o padrão energético atual.

Dizer que ainda há esperança e que ainda há tempo para mudar de direção é esconder que a catástrofe está aqui na frente. Daqui a “quatro dias”, geologicamente falando.

Temos que dizer a verdade: é uma emergência

Digamo-nos a verdade: já estamos à ladeira escorregadiça abaixo, em que os freios não obedecem e é praticamente impossível deter-se. Estamos defendendo a catástrofe. Só na teoria seria possível parar: na prática, na realidade, não o é. Dizer que, todavia, há esperança e que há tempo para corrigir a direção… na maior parte das pessoas que o dizem, é o desconhecimento, falta de rigor no planejamento, e talvez medo de parecer pessimista, ou boa intenção para não desanimar as pessoas, pensando que, com estímulos positivos, reagirão melhor, do que dizendo-lhes a verdade amarga da catástrofe que já temos aí adiante, dentro de “quatro dias”, geologicamente falando.

Sejamos realistas e digamos a verdade: já estamos na 6ª grande extinção, no caminho certo que conduz à grande catástrofe. Outra coisa é que, teoricamente, se poderia parar… Mas a realidade é que levamos uma grande inércia, que nos faz dificílimo parar, e para agravar, não estamos convencidos da necessidade de fazê-lo, nem estamos dispostos a assumir os grandes sacrifícios que teríamos de fazer para conseguir ir freando e, finalmente, determos na estrada até a catástrofe.

Só se mudarmos muito, muitíssimo, e só se o fizéssemos muito rapidamente, poderíamos evitar essa catástrofe, que agora mesmo é o mais provável.

Só se conseguirmos fazer uma reconversão sócio-politico-produtiva descomunal de nossa sociedade, e uma transformação radical de nosso estilo de vida, de nosso padrão energético e de nosso sistema de produção, poderíamos deter o desastre.

Só se mudarmos muito, muitíssimo, e só se o fizéssemos muito rapidamente, poderíamos evitar essa catástrofe, que agora mesmo é o mais provável. Se não o conseguirmos, ou – o que é pior – se simplesmente não fazemos nada – ainda que seja sem deixar de “falar” no assunto – a catástrofe está garantida. Continuar tendo medo em dizê-lo é um erro. Temos que dizê-lo.

Os povos indígenas “sentem a sacralidade da terra”. É por isso que valorizar e lutar pela preservação de sua cultura e visão de mundo também é um compromisso com a vida. Fotografia: Associação ANSA.

7. ECOLOGIA INTEGRAL NA PRÁTICA

Com toda a visão ecológica crítica a que hoje chegamos, é obvio que temos que mudar. Se sabemos que o mundo não é como havíamos imaginado; se nos sentimos de outra maneira; se percebemos que nossa conduta errada nos submeteu a um caminho de autodestruição, é urgente sermos coerentes com a nova visão integralmente ecológica.

Abandonar o atual modelo civilizacional, voltado inteiramente ao pós-“crescimento econômico”, contrário ao planeta e ao custo da vida – que já esgotamos e continuamos destruindo, na nova extinção massiva que inauguramos –, e colocar em marcha um novo sistema econômico integralmente funcional à conservação e ao crescimento da vida, e ao Bem Viver da humanidade em harmonia com nossa irmã e Mãe Terra. Eis a grande transformação que urge ser colocada em prática.

Com os novos fundamentos teóricos (a nova Visão que a Ciência permitiu) e com a força interior que nos dá a nova sensibilidade espiritual relacionada à natureza, podemos/devemos colocar em marcha novas práticas integradas com a visão integralmente ecológica. Temos que assumi-las com plena convicção, em nossa própria vida em primeiro lugar, e tratar de difundi-las militantemente.

Ja no hi ha temps per discutir, només urgeix tallar radicalment l’emissió de més CO2. S’ha de reduir dràsticament l’ús dels combustibles fòssils.

Uma mudança radical do sistema energético

Obviamente nos é essencial a energia para viver, e na Terra, e principalmente nos raios do sol, existe mais do que suficiente, abundantemente. O problema é que sem saber disso, construímos nossa civilização sob a energia do carbono, cujo dióxido (CO2) somente muito mais tarde soubemos que envenena a atmosfera e produz o efeito estufa. Já está em curso há tempos, e hoje sabemos que avança perigosa e, sem dúvida nenhuma, esses últimos anos tem sido os mais quentes de que se tem conhecimento. Não temos tempo de ficar discutindo, é urgente acabar totalmente com a emissão de mais CO2. É preciso reduzir drasticamente o uso dos combustíveis fósseis (petróleo, gasolina, gás, carvão) em favor de energias limpas e renováveis.

La consigna principal és viure amb austeritat, sense luxes innecessaris, sense nivells de vida ofensius per a la immensa majoria de la població mundial, que viu en la pobresa. Eradicar en mi el consumisme.

Uma mudança de estilo de vida

Muitas pessoas, em diversos lugares, fazendo coisas pequenas, em todos os aspectos da vida, marcarão uma mudança profunda na vida do planeta. Com isso, darão início a uma civilização nova, civilização da austeridade compartilhada e do Bem-Viver e em harmonia com a Mãe Terra:

•  Viver com austeridade, sem luxos, sem níveis de vida ofensivos para a imensa maioria da população mundial, que vive na pobreza

•  Erradicar o consumismo. Não comprar o que não é indispensável. Não querer sempre “o último modelo”. Zero de gastos inúteis. Não à dieta obsessivamente carnívora. Não às comodidades não essenciais e invertê-las em favor da ecologia.

• Utilizar menos água quente.

•  Zero de comida jogada ao lixo.

•  Apagar as luzes não indispensáveis, não utilizar o standby dos eletrodomésticos. Não comprar novos aparelhos quando não nos sejam imprescindíveis.

•  Os “5 Rs”: reutilizar, reduzir, recuperar, reciclar, regular, confere no google.

Trata-se de uma “transformação ecológica” e de uma “revolução cultural”: tudo é diferente, a única saída. O velho estilo de vida se torna “ecocida”: se não nos convertermos, nos suicidamos.

Uma opção pelo decrescimento

O “decrescimento” é uma correção do estilo de vida hoje urgente para retornar parte do caminho percorrido na autodestruição do planeta. É um tema delicado, pois há muitos inimigos, que esbarram em um dos “dogmas” mais sensíveis do sistema econômico, o do “crescimento contínuo, ilimitado”.

Mas em um planeta finito, em que já ocupamos muito do que ele precisa para repor nosso consumo, defender um crescimento ilimitado torna-se insustentável. Continuar reivindicando o crescimento ilimitado para dar a toda população mundial o nível de vida atual dos países desenvolvidos implicaria poder dispor de vários planetas; porém somente temos este. Pretender continuar crescendo desse modo é optar por auto asfixiar-nos.

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Nova visão, integralmente ecológica

Para uma boa prática, duas mudanças são prévias:

Mudança de pensamento: olhos que não veem, coração que não sente… A pessoa que ainda tem a velha imagem, que ainda está pensando que é um ser celestial que vive no meio de um mundo de meros objetos e animais inferiores, vai depreciá-lo, sem ter consciência das maravilhas que o rodeia no meio da Comunidade da Vida, e sem conhecer os mistérios insondáveis do Cosmos de que somos parte.

Mudança de espiritualidade: a espiritualidade tradicional olhava apenas o céu dos espíritos, não o mundo natural da Terra, e apenas nos remetia a textos sagrados espirituais. Parecia que uma pessoa era mais espiritual quanto mais se distanciava da Terra. Hoje estamos mudando; já intuímos que o espírito é inerente à matéria, que o mundo não é inimigo da alma e que podemos/devemos nos voltar à Terra como nosso lar espiritual.

Este texto é uma síntese da publicação na Agenda Llatinoamericana de 2017.

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20 de abril de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

Aos irmãos e irmãs dos movimentos e organizações populares.

Queridos amigos,

Lembro-me com frequência de nossos encontros: dois no Vaticano e um em Santa Cruz de la Sierra e confesso que essa “memória” me faz bem, me aproxima de vocês, me faz repensar em tantos diálogos durante esses encontros e em tantas esperanças que ali nasceram e cresceram e muitos delas se tornaram realidade. Agora, no meio dessa pandemia, eu me lembro de vocês de uma maneira especial e quero estar perto de vocês.

Nestes dias de tanta angústia e dificuldade, muitos se referiram à pandemia que sofremos com metáforas bélicas. Se a luta contra o COVID-19 é uma guerra, vocês são um verdadeiro exército invisível que luta nas trincheiras mais perigosas. Um exército sem outra arma senão a solidariedade, a esperança e o sentido da comunidade que reverdecem nos dias de hoje em que ninguém se salva sozinho. Vocês são para mim, como lhes disse em nossas reuniões, verdadeiros poetas sociais, que desde as periferias esquecidas criam soluções dignas para os problemas mais prementes dos excluídos.

Eu sei que muitas vezes vocês não são reconhecidos adequadamente porque, para este sistema, são verdadeiramente invisíveis. As soluções do mercado não chegam às periferias e a presença protetora do Estado é escassa. Nem vocês têm os recursos para realizar as funções próprias do Estado. Vocês são vistos com suspeita por superarem a mera filantropia por meio da organização comunitária ou por reivindicarem seus direitos, em vez de ficarem resignados à espera de ver se alguma migalha cai daqueles que detêm o poder econômico. Muitas vezes mastigam raiva e impotência quando veem as desigualdades que persistem mesmo quando terminam todas as desculpas para sustentar privilégios. No entanto, vocês não se encerram na denúncia: arregaçam as mangas e continuam a trabalhar para suas famílias, seus bairros, para o bem comum. Essa atitude de vocês me ajuda, questiona e ensina muito.

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Feito desde o Araguaia e desde Barcelona!

Penso nas pessoas, especialmente mulheres, que multiplicam o pão nos refeitórios comunitários, cozinhando com duas cebolas e um pacote de arroz um delicioso guisado para centenas de crianças, penso nos doentes, penso nos idosos. Elas nunca aparecem na mídia convencional. Tampouco os camponeses e os agricultores familiares, que continuam a trabalhar para produzir alimentos saudáveis, sem destruir a natureza, sem monopolizá-los ou especular com a necessidade do povo. Quero que saibam que nosso Pai Celestial olha para vocês, vos valoriza, reconhece e fortalece em sua escolha. Quão difícil é ficar em casa para quem mora em uma pequena casa precária ou para quem de fato não tem teto. Quão difícil é para os migrantes, as pessoas privadas de liberdade ou para aqueles que realizam um processo de cura para dependências. Vocês estão lá, colocando seu corpo ao lado deles, para tornar as coisas menos difíceis, menos dolorosas. Congratulo a vocês e agradeço do fundo do meu coração. Espero que os governos entendam que os paradigmas tecnocráticos (sejam centrados no estado, sejam centrados no mercado) não são suficientes para enfrentar esta crise e nem os outros problemas importantes da humanidade. Agora, mais do que nunca, são as pessoas, as comunidades, os povos que devem estar no centro, unidos para curar, cuidar, compartilhar.

Eu sei que vocês foram excluídos dos benefícios da globalização. Não desfrutam daqueles prazeres superficiais que anestesiam tantas consciências. Apesar disso, vocês sempre sofrem os danos dessa globalização. Os males que afligem a todos, a vocês atingem duplamente. Muitos de vocês vivem o dia a dia sem nenhum tipo de garantias legais que os protejam. Os vendedores ambulantes, os recicladores, os feirantes, os pequenos agricultores, os pedreiros, as costureiras, os que realizam diferentes tarefas de cuidado. Vocês, trabalhadores informais, independentes ou da economia popular, não têm um salário estável para resistir a esse momento … e as quarentenas são insuportáveis para vocês. Talvez seja a hora de pensar em um salário universal que reconheça e dignifique as tarefas nobres e insubstituíveis que vocês realizam; capaz de garantir e tornar realidade esse slogan tão humano e cristão: nenhum trabalhador sem direitos.

Também gostaria de convidá-los a pensar no “depois”, porque esta tempestade vai acabar e suas sérias consequências já estão sendo sentidas. Vocês não são uns improvisados, têm a cultura, a metodologia, mas principalmente a sabedoria que é amassada com o fermento de sentir a dor do outro como sua. Quero que pensemos no projeto de desenvolvimento humano integral que ansiamos, focado no protagonismo dos Povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T que vocês defendem: terra e comida, teto e trabalho. Espero que esse momento de perigo nos tire do piloto automático, sacuda nossas consciências adormecidas e permita uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro. Nossa civilização, tão competitiva e individualista, com suas taxas frenéticas de produção e consumo, seus luxos excessivos e lucros desmedidos para poucos, precisa mudar, se repensar, se regenerar. Vocês são construtores indispensáveis dessa mudança urgente; além disso, vocês possuem uma voz autorizada para testemunhar que isso é possível. Vocês conhecem crises e privações … que com modéstia, dignidade, comprometimento, esforço e solidariedade, conseguem transformar em uma promessa de vida para suas famílias e comunidades.

Mantenham vossa luta e cuidem-se como irmãos. Oro por vocês, oro com vocês e quero pedir ao nosso Deus Pai que os abençoe, encha vocês com o seu amor e os defenda ao longo do caminho, dando-lhes a força que nos mantém vivos e não desaponta: a esperança. Por favor, orem por mim que eu também preciso.

Fraternalmente,

Cidade do Vaticano, 12 de abril de 2020, Domingo de Páscoa.

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O coronavírus mantém o mundo em choque. Em vez de combater as causas estruturais da pandemia, os governos estão se concentrando apenas em medidas de emergência.

3 de abril de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

Conversamos com Rob Wallace sobre os perigos do COVID-19, a responsabilidade do agronegócio e as soluções sustentáveis para combater doenças infecciosas.

Wallace é um biólogo evolutivo e fitogeógrafo para a saúde pública nos Estados Unidos. Ele trabalha em vários aspectos de novas pandemias há 25 anos e é o autor do livro Big Farms Make Big Flu (Grandes Fazendas Produzem Grandes Gripes, em português).

Quão perigoso é o coronavírus?

Depende de onde você esteja no momento do surto local de COVID-19: nível inicial, nível máximo, tardio. Depende também do tipo de resposta que as instituições de saúde pública estejam dando na sua região. De quais sejam seus dados demográficos, de quantos anos você tem, se você é imunologicamente saudável no momento da infecção ou de como está a sua saúde subjacente. Você também pode ser uma pessoa não diagnosticável por sua imunogenética, a genética subjacente que fornece uma resposta imune ao vírus e o vírus pode não ter nenhum sintoma.

Então, todo esse alarme em torno do vírus é apenas uma estratégia para assustar às pessoas?

Não, certamente não. O COVID-19 apresentava uma taxa de mortalidade ou de estatísticas por morte do virus (CFR – Case Fatality Rate-) de 2 a 4% no início do surto em Wuhan. Fora de Wuhan, o CFR parece cair para cerca de 1% e até abaixo disso, mas também parece aumentar em pontos aqui e ali, mesmo em lugares na Itália e nos Estados Unidos. Seu alcance não parece ser muito alto comparado a, por exemplo, a Síndrome Respiratória Aguda a 10% (SARS); a Gripe de 1918, 5-20%; a Gripe aviária H5N1, 60%; e em alguns lugares, o Ebola, de 90%. Mas certamente excede 0,1% de CFR da incidência de gripe sazonal. No entanto, o perigo não é apenas uma questão de taxa de mortalidade, mas também temos que enfrentar o que é chamado de penetração na taxa de ataque da comunidade: qual a penetração do surto em toda a população mundial.

Poderia ser mais específico?

A rede global de viagens possui conectividade recorde. Sem vacinas ou antivírus específicos para coronavírus ou qualquer imunidade no momento, mesmo um vírus com apenas 1% de mortalidade pode ser um perigo sério. Com um período de incubação de até duas semanas e mais e mais evidências de transmissão antes da doença – antes que saibamos que as pessoas estão infectadas – poucos locais estão livres de infecção. Por exemplo, se o COVID-19 registrar 1% das mortes, o processo de infecção de quatro bilhões de pessoas resultará em 40 milhões de mortes. Uma pequena proporção de grandes números pode representar grandes números.

Estes são dados alarmantes, considerando que a virulência do patógeno é consideravelmente menor …

Absolutamente, e estamos apenas no início do surto. É importante entender que muitas novas infecções mudam ao longo das epidemias. Infectividade, virulência ou ambas podem ser atenuadas. Por outro lado, outros surtos aumentam em virulência. A primeira onda da pandemia de gripe, na primavera de 1918, foi uma infecção relativamente leve. Foram a segunda e terceira ondas daquele inverno e até 1919 as que mataram milhões.

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Mas epidemiologistas céticos dizem que menos pessoas estão infectadas e morreram de coronavírus do que com a gripe sazonal típica. O que você acha?

Eu seria o primeiro a celebrá-lo se esse surto provar ser um fracasso. Mas esses esforços para descartar o COVID-19 como um perigo potencial, citando outras doenças mortais – especialmente a gripe – são um recurso retórico mal utilizado para falar sobre a preocupação com o coronavírus.

O COVID-19 está apenas começando seu caminho epidemiológico e, diferentemente da gripe, não temos vacina ou imunidade coletiva para interromper a infecção e proteger as populações mais vulneráveis.

Então, a comparação é errada?

Não faz sentido comparar dois patógenos em momentos diferentes em suas curvas de desenvolvimento. Sim, a gripe sazonal infecta bilhões em todo o mundo, matando, conforme estimado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), até 650.000 pessoas por ano. O COVID-19, no entanto, está apenas começando o seu caminho epidemiológico e, diferentemente da gripe, não temos vacina ou imunidade coletiva para conter a infecção e proteger as populações mais vulneráveis.

Mesmo que a comparação seja enganosa, ambos os vírus pertencem ao grupo específico de RNA, os quais afetam a área da boca e da garganta e, às vezes, também os pulmões. Ambos são bastante contagiosos.

Essas são semelhanças de superfície que não levam em consideração uma diferença significativa entre os dois patógenos. Sabemos muito sobre a dinâmica da gripe. Sabemos muito pouco sobre o COVID-19, que é cheio de incógnitas. De fato, existem muitas informações sobre o comportamento do COVID-19 que não serão conhecidas até que o surto seja totalmente desenvolvido. Ao mesmo tempo, é importante entender que isso não é o COVID-19 versus a gripe sazonal. É o COVID-19 e a gripe. O surgimento de múltiplas infecções que podem se transformar em pandemia, atacando as populações em conjunto, deve ser a principal e central preocupação.

Você está pesquisando epidemias e suas causas há vários anos. No seu livro ‘Grandes fazendas produzem grandes gripes’, você tenta fazer conexões entre as práticas agrícolas industriais, a agricultura orgânica e a epidemiologia viral. Quais são essas conexões?

O perigo real de cada novo surto é o fracasso, ou melhor, a recusa voluntária de tentar entender que cada novo COVID-19 não é um incidente isolado. O aumento do efeito dos vírus está intimamente ligado à produção de alimentos e à lucratividade das empresas multinacionais.

Quem quer entender por que os vírus estão se tornando mais perigosos deve pesquisar o modelo industrial da agricultura e, mais especificamente, a produção pecuária. Hoje, poucos governos e poucos cientistas estão preparados para fazê-lo. Com os novos surtos, governos, mídia e até a maioria dos centros médicos estão tão focados na emergência que descartam as causas estruturais que estão levando vários patógenos marginalizados a se tornarem um fenômeno global inesperado.

“O aumento da ocorrência de vírus está intimamente ligado à produção de alimentos e à lucratividade das empresas multinacionais”

Quem são os responsáveis?

Eu mencionei agricultura industrial. O grande capital está na vanguarda da apropriação de terras nas últimas florestas primárias e pequenas propriedades agrícolas ao redor do mundo. Esses investimentos geram desmatamento e um *desenvolvimento* que provoca o surgimento de doenças. A diversidade funcional e a complexidade que envolvem essas enormes extensões de terra estão se racionalizando até o ponto que patógenos, que antes permaneciam fechados, estão se espalhando pelas comunidades locais. Em resumo, centros de capital, como Londres, Nova York e Hong Kong, precisam ser considerados como os principais pontos críticos da doença.

Mas, de quais doenças estamos falando?

Atualmente, não existem patógenos livres da influência do capital. Até os mais remotos são afetados mesmo à distância. Ebola, zika, coronavírus, febre amarela novamente, uma variedade de gripe aviária e peste suína africana estão entre muitos patógenos que saem das áreas mais remotas (dos ecossistemas selvagens) e chegam até as áreas peri-urbanas, capitais regionais e, de lá, para a rede global de viagens. Dos morcegos no Congo até matar pessoas que estão tomando o sol em Miami em apenas algumas semanas.

“Molts nous patògens prèviament controlats per ecologies forestals de llarga evolució estan sent alliberats, amenaçant el món sencer”

Qual é o papel das empresas multinacionais?

O Planeta Terra é uma grande parte da Fazenda-Planeta, tanto em termos de biomassa quanto da terra utilizada. O agronegócio busca conquistar o mercado de alimentos. Quase todo o projeto neoliberal é organizado em torno de esforços para apoiar as empresas baseadas nos países industrializados mais avançados a roubar terras e recursos dos países mais fracos. Como resultado, muitos desses novos patógenos previamente controlados por ecologias florestais de longa evolução estão sendo liberados, ameaçando o mundo inteiro.

Quais são os efeitos dos métodos de produção do agronegócio?

A agricultura comandada pelo capital que substitui mais ecologias naturais oferece as condições perfeitas para os patógenos desenvolverem os fenótipos mais virulentos e infecciosos. Nenhum sistema poderia ter sido melhor projetado para gerar doenças mortais.

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Como é possível?

A expansão das monoculturas genéticas animais remove qualquer barreira imunológica para diminuir a transmissão. As grandes densidades populacionais facilitam taxas de transmissão mais altas. Tais condições de superlotação diminuem a resposta imune. A alta produtividade, como parte indissolúvel de qualquer produção industrial, fornece continuamente novos materiais suscetíveis ao vírus e que se alimentam da evolução da virulência. Em outras palavras, o agronegócio está tão focado nos lucros que produzir um vírus que poderia matar bilhões de pessoas é considerado um risco que vale a pena correr.

“O agronegócio está tão focado nos lucros que causar um vírus que poderia matar um bilhão de pessoas é considerado um risco que vale a pena correr”.

Como fariam isso?

Essas empresas podem terceirizar os custos de suas operações epidemiologicamente perigosas para todo o restante. Desde os próprios animais até os consumidores, os trabalhadores agrícolas, o entorno local e os governos de todas as jurisdições. O dano é tão grande que, se devolvêssemos esses custos para os balanços das empresas, o agronegócio, como sabemos, terminaria para sempre. Nenhuma empresa poderia suportar os custos dos danos que causa.

Muitos meios de comunicação colocam o inicio do coronavírus no mercado de alimentos exóticos em Wuhan. É isso mesmo?

Sim e não. Há dicas espaciais apontando aqui. O acompanhamento dos contatos de infecção relacionados apontam ao mercado atacadista de frutos do mar de Hunan em Wuhan, onde foram vendidos animais selvagens. A amostragem ambiental parece apontar para o extremo oeste do mercado, onde estavam esses animais selvagens. Mas a que distância e até onde devemos ir? Quando exatamente começou a emergência? Focar nesse mercado é também não considerar a origem na agricultura silvestre no interior e sua crescente capitalização.

Globalmente, e na China, os alimentos silvestres estão sendo incorporados como mais um setor econômico. Mas o relacionamento deles com a agricultura industrial vai além do simples compartilhamento dos mesmos sacos de dinheiro. À medida que a produção industrial (suínos, aves e afins) se expande para a floresta primária, empurra todos aqueles que cultivam alimentos silvestres para mais fundo na floresta para encontrar animais selvagens, e isso faz aumentar a disseminação de novos patógenos, incluindo o COVID-19.

El COVID-19 no és el primer virus que es desenvolupa a la Xina i el govern tracta d’ocultar.

Sí, però aquesta no és una manera d’actuar específicament xinesa. Els Estats Units i Europa també han servit com a origen per a noves grips, recentment l’H5N2 i l’H5Nx, i les seves multinacionals i representants neocolonials van impulsar l’aparició de l’ebola a l’Àfrica occidental i el zika al Brasil. Els funcionaris de salut pública dels EUA van protegir els agronegocis durant els brots de l’H1N1 (el 2009) i l’H5N2.

“As multinacionais e representantes neocoloniais europeus e norte-americanos impulsaram o surgimento do Ebola na África Ocidental e do Zika no Brasil”

A reestruturação neoliberal do sistema de saúde piorou tanto a pesquisa quanto o atendimento geral ao paciente, por exemplo, nos hospitais. Como um sistema de saúde melhor poderia combater o vírus?

Há a terrível história de um funcionário da empresa de dispositivos médicos de Miami, que voltou da China com sintomas de gripe, fez a coisa certa para sua família e comunidade e exigiu o exame do COVID-19 em um hospital local. Ele estava preocupado com que sua opção mínima de Obamacare não cobrisse os testes. E estava correto, pois o teste custou US$3.720,00. Uma demanda nos EUA poderia ser que durante um surto de pandemia, o governo federal pagasse todas as contas médicas pendentes relacionadas aos testes e tratamentos de infecção após um resultado positivo. Afinal, queremos incentivar as pessoas a procurar ajuda, em vez de esconder e infectar outras pessoas, porque não podem pagar pelo tratamento. A solução óbvia é um serviço nacional de saúde, com todo o pessoal necessário e equipado para lidar com emergências em toda a comunidade, para que a cooperação comunitária nunca seja desencorajada.

Assim que o vírus é descoberto em um país, os governos de todo o mundo reagem com medidas autoritárias e punitivas, como quarenta obrigatórias de todas as áreas de terra e cidades. Tais medidas drásticas são justificadas?

O uso de um surto para testar o controle autocrático após o surto demonstra a imoralidade e a natureza desonesta da gestão capitalista de desastres. Em relação à saúde pública, defendo a verdade e a compaixão, que são importantes variáveis ​​epidemiológicas. Sem elas, as leis perderão o apoio da população. Um senso de solidariedade e respeito mútuo é uma parte essencial para obter a cooperação que precisamos para sobreviver juntos a essas ameaças. Quarentenas automáticas com o apoio certo – brigadas de vizinhos treinados, caminhões para fornecer alimentos porta a porta, autorizações de trabalho e seguro-desemprego – podem levar a esse tipo de cooperação. Estamos todos juntos nisso.

Como você sabe, na Alemanha, o AfD é um partido nazista “de fato”, com 94 cadeiras no Parlamento. A extrema direita e outros grupos em associação com os políticos do AfD usam a crise do coronavírus. Eles espalham relatos falsos sobre o vírus e exigem medidas mais autoritárias do governo: restringindo voos e entradas de migrantes, fechando fronteiras e quarentena forçada.

A extrema direita quer usar o que hoje é uma doença global para racializar as proibições de viagens e o fechamento de fronteiras. É claro que isso é sem sentido. Nesse ponto, e como o vírus já está se espalhando por todo o lugar, o mais razoável é trabalhar para melhorar a resistência do sistema de saúde, para que independentemente de quem esteja infectado, possamos ter os meios para tratá-lo e curá-lo. E, é claro, que parem de roubar a terra aos povos originais e causar o êxodo em primeiro lugar, somente dessa maneira podemos impedir que os patógenos surjam.

Que parem de roubar a terra aos povos originais e causar o êxodo dos mesmos em primeiro lugar, somente dessa maneira podemos impedir que os patógenos surjam.

Quais poderiam ser as mudanças sustentáveis?

A produção de alimentos precisa mudar drasticamente para reduzir o surgimento de novos surtos de vírus. A autonomia do agricultor e um setor público forte podem impedir o surgimento ambiental de cadeias unidirecionais de contágio e infecções não controladas. Introduzir variedades de gado e de culturas, assim como uma reestruturação estratégica, tanto no nível das fazendas quanto regional. Permitir que os animais forrageiros se reproduzam no local para transmitir imunidades testadas. Conectar a produção justa com logística justa. Apoiar subsídios de preços e aos consumidores que ajudem à produção agroecológica. É importante que essas medidas sejam defendidas contra as compulsões que a economia neoliberal impõe a indivíduos e comunidades, bem como as ameaças de repressão estatal lideradas pelas forças do capital.

Quais devem ser as demandas da esquerda revolucionária contra a dinâmica crescente dos surtos?

A agroindústria como modo de reprodução social deve terminar para sempre, mesmo que seja apenas em prol da saúde pública. A produção de alimentos altamente capitalizada depende de práticas que põem em perigo toda a humanidade, neste caso, ajudando a desencadear uma nova pandemia mortal. Deveríamos exigir que os sistemas alimentares fossem socializados de maneira a evitar o surgimento de tais patógenos perigosos em primeiro lugar. Isso exigirá, em primeiro lugar, a reintegração da produção de alimentos às necessidades das comunidades rurais. Também exigirá práticas agroecológicas que protejam o meio ambiente e os agricultores na medida em que são eles os que cultivam nossos alimentos. Em geral, devemos curar as falhas metabólicas que separam nossas ecologias de nossas economias. Em síntese, temos todo um planeta para ganhar.

Entrevista publicada originalmente em Marx.21.  Tradução ao português nossa. Publicada no 18 de março de 2020 na revista Directa, AQUI. 

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31 de março de 2020

As Causas de Pedro Casaldáliga

Na América Latina já tem se confirmado casos de coronavirus em todos os países do Continente. Na Amazônia, segundo informa a Rede Eclesial Panamazónica (REPAM), há 1.580 casos confirmados e 49 falecidos, em 7 de abril de 2020. A pandemia não se encontra, portanto, tão espalhada e nem atinge tantas pessoas quanto na Europa ou na Ásia. Podemos dizer que está ainda na fase inicial.

No entanto, existe um grande preocupação por parte da população daquí pelo impacto e as conseqüências que poderia ter a crise do coronavirus.

A região do Araguaia tem mais de 150.000Km2 de extensão, é maior, portanto, que alguns países europeus como Portugal, por exemplo… só que apenas temos hospitais. Também não temos respiradores ou medicamentos necessários para o tratamento da doença.

Como em muitos outros lugares do Brasil, o trabalho informal, muitas vezes na rua, é a base do sustento de muitas famílias que vivem em condições precárias. Só em São Félix do Araguaia, a nossa associação atende mais de 500 pessoas (sobre uma população de 5.000) que vivem abaixo da linha da pobreza. Ou seja, que sobrevivem com menos de meio salário mínimo por pessoa.

Este cenário de fragilidade social e económica explica porque tem se tomado medidas preventivas, de confinamento e isolamento social, desde o começo da ameaça. As conseqüências podem ser trágicas.

Da mesma forma, os povos indígenas são os mais vulneráveis ao avanço do virus. Os povos Karajá, Tapirapé e Xavante, que vivem com nós no Araguaia tem um acesso muito difícil ao sistema de saúde: por exemplo, desde a terra Marãiwatsédé, onde moram mais de 1.200 Xavante, até o hospital mais próximo tem mais de 5 horas de viagem.

Os povos indígenas se encontram em uma situação de vulnerabilidade e precisam de cuidados, atenção e respeito.

Os povos Karajá, Tapirapé e Xavante estão entre os mais vulnerávies do Araguaia.

O QUE ESTAMOS FAZENDO PARA ENFRENTAR O CORONAVIRUS

Na Associação temos seguido as medidas recomendadas pelos órgãos públicos responsáveis e estamos em contato permanente com as comunidades para podermos responder às necessidades e avaliar a melhor maneira de adaptar nossos projetos, considerando as circunstâncias alarmantes.

No momento, não temos conhecimento de que alguém de nossas equipes ou de nossos projetos esteja afetado pela doença.

No entanto, como medida de prevenção, temos estabelecido medidas que reduzem nossa exposição a áreas e/ou fatores de risco e que permitem a continuação de nossa atividade.

Nas áreas de risco, principalmente em assentamentos e comunidades indígenas, suspendemos temporariamente nossa atividade porque, acima de tudo, o mais importante é a segurança das pessoas por e para quem trabalhamos, nossa equipe e os demais cidadãos.

Em assentamentos e comunidades indígenas, suspendemos temporariamente nossa atividade porque, acima de tudo, o mais importante é a segurança das pessoas.

Na sede da Associação, em São Félix do Araguaia, temos a estrutura adequada para trabalhar à distância.

Nesse sentido, temos adotado as seguintes iniciativas:

Coordenação com autoridades municipais para estarmos atentos à evolução do risco.

– Pertencemos a rede de proteção social do cidadão brasileiro em situação de vulnerabilidade social.

– Apoio para que as comunidades consigam seus alimentos dentro de seus próprios espaços e tenham que se locomover o mínimo necessário.

– Estamos em contato permanente com as famílias que moram nas comunidades onde trabalhamos, para saber como se encontram e poder atendê-las, caso seja necessário.

A contenção e mitigação da propagação da doença são de responsabilidade de toda a sociedade e, para isso, é necessário ficar em casa.

Agora, mais do que nunca, cuidar da nossa saúde é cuidar da saúde de todas/os e nossa associação possui a tecnologia e o equipamento necessários para continuar e monitorar nosso trabalho.

Por isso, fiquemos em casa. Cuidemos da gente.

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Em meio à fartura da transição do Cerrado para a Amazônia, a região do Araguaia apresenta diversas espécies nativas de frutas e o gosto popular por elas. São sabores únicos como a cagaita, a bacaba e a mangaba. Valorizar o uso das plantas nativas e incentivar o plantio diversificado de frutas estão na base do trabalho da Araguaia Polpas de Frutas.

16 de fevereiro de 2020

As Causas de Pedro Casaldáliga

Criada pela associação que Casaldáliga e sua equipe fundaram em 1974 em São Félix do Araguaia, a ANSA, e continuada hoje pela Organização Ecosocial do Araguaia (OECA) esta iniciativa busca melhorar a alimentação e nutrição das famílias que vivem no campo, ao mesmo tempo em que é uma forma de obter renda para os agricultores e Povos Indígenas que moram nesta região da Amazônia brasileira.

A iniciativa é conhecida como “Araguaia Polpa de Frutas”, porque consiste em incentivar e apoiar o plantio de árvores frutíferas no campo, e depois recolher as frutas e levá-las para uma pequena indústria onde fabricamos polpa congelada. Essa polpa (extrato concentrado) é vendida no mercado regional e é utilizada para fazer sucos naturais.

A fábrica existe de forma estruturada desde 2005 e produz polpa natural congelada a partir de 20 frutas nativas cultivadas na região por pequenos agricultores ou colhidas pelos Povos Indígenas em suas terras.

O projeto visa, portanto, ajudar a estruturar uma cadeia produtiva baseada em frutas orgânicas, na inclusão de todas as famílias e povos e na conservação ambiental.

Anualmente, cerca de 250 pessoas obtém uma parte da sua renda através deste projeto “Araguaia Polpa de Frutas” e se dedicam a plantar ou colher frutas.

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Além das frutas colhidos nos pomares ou campos onde há plantações, como a Manga, o Abacaxi, a Goiaba, o Maracujá, etc., muitas famílias plantam frutas nativas, que só crescem no Cerrado, como o Pequi, a Bacaba ou a Mangaba. No “varjão”, como são chamadas as áreas baixas que são inundadas durante a estação das chuvas, as famílias também recolhem frutos muito tradicionais, que crescem espontaneamente, como o Murici ou o Buriti. Desta forma, damos um valor económico às frutas da região e desencorajamos que essas árvores sejam cortadas ou queimadas para plantar soja.

“Colhemos a fruta na chuva, no sol, com a água nos tornozelos, mas é muito gratificante para nós colher esta fruta, limpá-la, classificá-la bem. E o dinheiro é uma bênção, eu posso pagar minhas contas”, diz uma das agricultoras familiares envolvidos no projeto.

Todo ano, é colocada em prática uma verdadeira operação no Assentamento Dom Pedro durante a safra do caju. A comunidade se organiza para gerenciar a entrega da fruta em sete pontos de coleta dentro do assentamento, contando com freezers disponibilizados pela OECA. Por ano, cerca de 40 famílias assentadas entregam uma média de 15 mil quilos de caju.

As polpas produzidas são vendidas em mercados, restaurantes e lanchonetes de São Félix do Araguaia e Alto Boa Vista e através de programas públicos quando possível.

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Os resíduos das frutas que saem da fábrica de polpas são aproveitados no Viveiro da OECA, seja para compostagem, seja para prover sementes para as mudas. As sementes também são vendidas para a Rede de Sementes do Xingu, apoiando outra iniciativa sustentável da região e gerando receita para o projeto.

Outra parceria interessante é a acolhida de estudantes de nível técnico e superior do campus do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) em Confresa como estagiários. Anualmente, entre 5 e 10 jovens da região aprendem o manejo e beneficiamento das polpas e aprendem técnicas de cultivo agroecológico adaptadas à realidade do Cerrado.

Nos últimos anos, a Araguaia Polpa de Frutas vem experimentando diversas inovações tecnológicas e organizativas para melhorar sua capacidade de suporte e a estratégia de compra e venda. Assim, o envasamento das polpas foi automatizado com uma ajuda solidária recebida e houve uma reforma na fábrica que permitiu a movimentação de cargas maiores através de pallets.

Complementarmente, foram desenhadas novas embalagens e produzidos novos materiais de divulgação. Desta forma, pretende-se aumentar as vendas de polpa, atingindo o mercado regional de forma sólida.

Assim, o projeto trilha rumo seu maior desafio futuro: conseguir tornar a fruticultura agroecológica e o extrativismo possibilidades reais de trabalhar a terra para os agricultores familiares da região.

É claro que seria necessária uma intervenção decidida e direcionada dos poderes públicos para conseguir uma mudança massiva do modelo produtivo da região, e que por si só, o projeto não tem, e nem deve ter, essa capacidade. Mas a Araguaia Polpa de Frutas, em articulação com outras iniciativas que se apresentam, é uma peça que contribui, de forma real e local, na construção do desafio maior de construirmos uma sociedade mais justa e igualitária onde sejamos parte da natureza.

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Povo Xavante: 50 anos de genocidio

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Aos 11 anos, Damião Paridzané foi levado de sua casa em um avião da FAB, junto a toda sua família e parentes.

Deportado da terra onde nasceu, Damião logo ficou sozinho, sem família: seu pai e seu irmão faleceram por causa de uma infeção de sarampo na remoção e a mãe dele foi levada para outra comunidade.

Em 2012 porém, após muitos anos de lutas, Damião, já com 60 anos, conseguiu pisar novamente seu chão e levar o seu povo com ele.

10 de janeiro de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

Em 1966, aviões da Força Aérea Brasileira deportaram os 264 indígenas Xavante que moravam na Terra Indígena Marãiwatsédé: em seu território ancestral estava sendo instalada a maior fazenda da América Latina.

Levados a mais de 400Km de sua casa natal, os indígenas foram recepcionados por uma epidemia de sarampo que matou mais de 100 pessoas.

«Longe de sua casa e com sua estrutura social fragilizada ocorreu a fragmentação do grupo por várias Terras Indígenas Xavante. Mas, os remanescentes de Marãiwatséde “sempre reivindicaram o retorno à sua região, empreendendo viagens anuais […] para visitar as aldeias e cemitérios antigos, além de recolher materiais nativos” que não encontravam nas outras Terras Indígenas onde estavam abrigados.», explica o indigenista Marcos Ramires.

A luta dos Xavante para retornar ao seu território continuou ao longo de décadas até que em 2012, após mais de 50 anos enfrentando os interesses de políticos e empresários, conseguiram recuperar as suas terras ancestrais.

Ano de 1966, quando eu tinha 11 anos de idade, houve um sobrevoo de um
avião da Força Aérea Brasileira (FAB) em Marãiwatsédé. (…) Esse avião posou na nossa aldeia e nos levou para a aldeia de São Marcos. O governo aproveitou que nós não falávamos português e chegou de surpresa para tirar nossa terra. Quando fomos levados pelo avião, deixamos nossos pertences na pista. Todos subiram no avião chorando. Deixamos nossas esteiras e baquetés, deixamos tudo!

Cacique Damião Paridzané

Depoimento a Pedro Casaldáliga

A orígem do conflito no Araguaia

Escreve Antônio Canuto em seu recente livro que «há pouco mais de 20 anos, quando começou a circular a notícia de que os Xavante voltariam à sua terra, na fazenda Suiá-Missú, muitos da região torciam o nariz e afirmavam que isso era conversa fiada, que nunca viram Xavante por aí.»

A realidade, porém, é que há registros dos Xavante no Araguaia desde a década de 1950, quando se produzeram diversos contatos entre eles e os retirantes não-índios que, aos poucos, iam chegando na região.

Os não-índios começaram a chegar ao Araguaia na década de 1950 e, aos poucos, se produziram os primeiros contatos -alguns violentos, com os povos indígenas. Fonte: Acervo FUNAI

De fato, a região do Araguaia começou a ser ocupada pelos não-índios no inicio do século XX, em uma migração espontânea de famílias que vinham do nordeste do Brasil à procura de um pedaço de terra para viver.

Fruto desse movimento, nasceu o povoado de São Félix do Araguaia -e muitos outros à beira do Rio. De lá, algumas famílias partiram «para o “sertão”, ou seja, para o interior do território até então ocupado apenas pelos Xavante», explica Marcos Ramires.

No entanto, antes de 1960, os encontros com os Xavante aconteceram de forma pontual, na imensidão da mata que ocupava a região, e há relatos tanto de encontros pacíficos quanto violentos.

Porém, como afirma Canuto, «a morte dos sertanejos, missionários e indigenistas sempre foi noticiada com estardalhaço para expor o caráter selvagem e violento dos indígenas. O que a eles aconteceu se torna totalmente invisível». 

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O detonante: a maior fazenda da América Latina

A Lei 4.216 de 1963, que extendia à Amazônia os beneficios fiscais previstos para o Nordeste,  inaugurou uma agressiva política de incentivos fiscais às empresas que fossem se instalar na Amazônia. A ideia era clara: «Dentro de um discurso nacionalista, os militares pregam a unificação do país. Além disso, era preciso proteger a floresta contra a “internacionalização”. Em 1966, o presidente Castelo Branco fala em “Integrar para não Entregar”», explica a BBC.

Em alguns casos, esses beneficios permitiam que o governo militar assumisse até 100% da totalidade dos projetos propostos, atraíndo dessa forma a instalação de grandes fazendas.

No Araguaia, destacaram-se a Codeara -protagonista de conflitos violentos ao norde da região, com 600.000 ha., e a Suiá-Missú, que chegaria a ter 1,5 milhões de hectares.

Paralelamente, muitos grupos industriais e financeiros, nacionais e estrangeiros, «passaram a abrir fazendas no nordeste do Mato Grosso, norte de Goiás e sul do Pará: Anderson Clayton, Goodyear, Nestlé, Mitsubishi, Liquifarm, Bordon, Swift Armour, Camargo Correa, Bradesco, Mappin, Eletrobrás, etc. Além de grandes fazendeiros tradicionais do sul que juntaram seu espírito empresarial aos cofres do Estado.», explicavam Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Müller, em 2008.

A fazenda Suiá-Missú foi instalada na Terra Indígena Marãiwatsédé, a 1.200Km ao norte de Brasília, na Amazônia Legal. Fonte: Agência Pública

No contexto dessa política de ocupação da Amazônia, o empresário paulistano Ariosto da Riva comprou do Estado do Mato Grosso a área onde moravam os Xavante. Mais tarde, se associou à família Ometto e instalaram na região a Agropecuária Suiá-Missu.

A fazenda foi criada em pleno território de Marãiwatsédé e contou, para sua “abertura” com o uso da mão-de-obra dos indígenas. O empreendimento tinha inicialmente mais de 800.000 hectares e foi considerado por alguns o maior latifúndio da América Latina.

[…] E os brancos começaram a se aproximar para roubar a terra. Então, cada vez mais, eles chegavam. A nossa tradição era dividir aldeia, porque o espaço era grande. Já estava perto de abare’u fazer a cerimônia, mas quando os brancos já estavam próximos o nosso uuu não tinha feito a cerimônia. Daí começou a encurralada atrás da terra. Eles eram espertos.

Tserewa'wa

Depoimento ao MPF

Mas, como explicam Armando Wilson Tafner Junior e Fábio Carlos da Silva, «conforme o rebanho ia aumentando, crescia a necessidade de formação de novos pastos o que levou ao aumento da área desmatada e eclosão de conflitos. Ariosto da Riva, que se associou inicialmente aos Ometto, logo desistiu da sociedade e vendeu sua parte nas terras para o Grupo Ometto devido a conflitos com posseiros e índios.

Esses conflitos passaram a incomodar o Grupo Ometto. Ariosto procurou novas terras desocupadas, mais ao Norte do Mato Grosso, onde hoje está localizado o município de Alta Floresta.

O Grupo Ometto fez o mesmo, vendeu suas terras a empresa Liquifarm Brasil S/A, depois de entrar em litígio com os índios Xavantes quando foram iniciar as obras para estabelecer o núcleo que levava o nome da tribo».

Segundo explica Pedro Casaldáliga em sua Carta Pastoral de 1971, a Fazenda Suiá-Missu possuía cerca de 695 mil hectares na década de 70, «extensão que superava a do próprio Distrito Federal. Tal acontecimento demonstra a capacidade econômica do grupo que controlava o empreendimento», explica o Ministério Público Federal.

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A terra é dos Xavante

Durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente de 1992, celebrada no Rio de Janeiro, os Xavante pressionaram as autoridades nacionais e internacionais e o presidente da Agip, Gabriele Cagliari, -que cometeria suicido pouco depois em uma prisão da Itália, acusado de corrupção, se comprometeu publicamente a devolver a área dos Xavante.

Porém, como relatava o jornal italiano La Repubblica em 1993: «o sonho dos xavante, expulsos de suas terras em 1966, permaneceu um sonho. Os 168 mil hectares da fazenda Suia Missu, no Mato Grosso, um ano depois, ainda são de propriedade da Agip Petroli».

O litigio com os Xavante ainda permaneceu sob a inação do governo brasileiro por mais de 5 anos, até que a Terra Indígena Marãiwatsédé foi homologada pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 1998.

O cacique Damião Paridzané, que sempre lutou pelos direitos de seu povo, continua afirmando que os brancos podem lhes oferecer — como carros, bois ou combustível — logo acaba. Mas a terra que ele poderá deixar para seus descendentes, não perde seu valor e não se acaba em pouco tempo. Fonte: ANSA e OPAN ; Foto: Luis Mena

A demora do Governo Brasileiro para homologar a área e os interesses de fazendeiros e políticos da região provocou a invasão massiva da terra dos Xavante.

A luta dos indígenas era bem conhecida na região, mas os 6 anos que se passaram desde a promessa de devolução da área indígena (na ECO-92) até o reconhecimento oficial da mesma em 1998, possibilitou a invasão da área por não-índios.

Nesse impasse, políticos e empresários, com a cumplicidade de advogados e até de registradores promoveram uma fraudulenta “reforma agrária particular” com a intenção de ocupar a área e dificultar a volta dos Xavante.

Deixa esse povo que está aqui querendo trabalhar, viver dessa terra, porque o índio vem pra cá, ele não vai produzir nada. Se os índios trabalhassem, produzissem, tudo bem, a gente ia respeitar o direito deles também, só que eles vão atrapalhar nossa região.

Filemon Limoeiro

Ex-Prefeito de São Félix do Araguaia, em 20 de junho de 1992

De fato, já em 1992, após a empresa italiana anunciar que iria devolver a área aos Xavante, políticos locais, empresários e advogados incentivaram a população a invadir o território Xavante.

Bom exemplo disso são as consignas ouvidas em uma reunião na área em disputa, transmitida ao vivo pela Rádio Mundial FM no dia 20 de junho e cujo áudio completo disponibilizamos a seguir:

Essa tentativa de dividir uma área que era dos Xavante, porém, se deu na lógica dos incentivadores: «A divisão da área, não se deu de forma equitativa. Enquanto grandes latifúndios eram formados nas terras tidas como de “boa qualidade”, por figuras “importantes” da região, as matas e o Cerrado, localizados em regiões cuja terra era considerada ruim, foram loteadas e entregues aos pequenos posseiros que ainda teriam que derrubar a vegetação para poder plantar e criar seus animais», explica Marcos Ramires.

O território dos Xavante foi ocupado e a sua vegetação destruída. Na fotografia, feita por nós, pode ser ver claramente o grau de destruição de uma área que era floresta. Foto: Liebe Lima / AXA.

Para completar, após tantos anos de invasão e de implantação de fazendas -grandes, médias e pequenas, dedicadas sobretudo à criação de gado, Marãiwatsédé -que significa “mata alta” na lingua Xavante, tinha perdido 80% de sua vegetação original.

De fato, essa tendência tem continuado até os dias de hoje, pois as invasões tem continuado. Resultado disso, até 2017, tinham sido desmatados 105.062 hectares da Terra Indígena.

Mas nossa floresta não está em pé, não tem floresta. Só encontramos pasto para todos os lados, sem floresta, e estamos vivendo aqui agora.

Estevão Tsimitsuté

Depoimento ao MPF

A volta dos Xavante

Em 2003, os anciãos de Marãiwatsédé expressaram o desejo de voltar à terra de seus ancestrais antes de morrerem.

Os jovens guerreiros sentiram-se na obrigação de propiciar-lhes esse retorno. Por isso, nesse mesmo ano, 280 pessoas se deslocaram até as portas da sua terra, crianças, jovens, adultos e velhos Xavante queriam voltar a viver em casa.

Porém, ao tentarem entrar na área -que tinha sido reconhecida legalmente fazia 5 anos, os Xavante foram impedidos pelos invasores, que bloquearam a BR-158 com a ajuda dos políticos e fazendeiros da região.

Quando os Xavante tentaram voltar a sua terra ancestral, os invasores interditaram as estradas e, com a ajuda de empresários e políticos com interesses na área, impediram a entrada dos indígenas. Foto: Arquivo FUNAI

Sem poder entrar em sua própria terra, foram forçados a ficar acampados embaixo de lonas pretas, às portas de sua casa ancestral por mais de 8 meses.

Ao longo desse tempo, sem assistência e sem recursos, faleceram 3 crianças e outras 14 tiveram que ser internadas.

Nessa situação, o TRF1 autorizou finalmente a volta dos Xavante e julgou por unanimidade que os ocupantes não indígenas agiram de má-fé e não têm direito à indenização.

No entanto, «a decisão teve recurso e em setembro, o vice-presidente do TRF1, Daniel Dias, voltou a suspender o processo por força de recursos interpostos pelos fazendeiros, representados pelo advogado Luiz Alfredo Feresin de Abreu, irmão da senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA)», explica a agência Repórter Brasil.

Na região, todos nós sabíamos que o conflito poderia ser iminente e que a situação criada entre uns e outros dificilmente poderia acabar bem.

Mas, finalmente, nos últimos meses de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou a remoção dos invasores e a entrada efetiva do Povo Xavante na Terra Indígena Marãiwatsédé.

No dia 7 de novembro de 2012 começaram a entregar no local as notificações que pedian a saída dos invasores.

Finalmente, após quarenta e seis anos de exilio, os Xavante tiveram definitivamente reconhecido o direito ao usufruto de seu território.

Marãiwatsédé hã
Tôtsena ti’a na watsiri’ãmo Wahõiba duré
Höiba-téb’ré hã, Ãhawimbã Date itsanidza’ra hã
Ahãta te Oto aimatsa’ti’ a na Ítémé we’re’iwadzõ
mori hã adza Oto ãma wawa’utudza’rani
Ti’a’a’a’ana… Ai’uté hã ãma ipótódza’ra hã
Tedza Oto ãma tsitébrè ti’a’a’a’ana.

A Terra Marãiwatsédé está em nossos
corações e em nossas almas
Ainda pequenos nos retiraram deste lugar
Mas hoje reconquistamos nossa terra,
nosso lar Agora de volta vou descansar nesta terra,
nesta terra, nesta terra…
Aquí eu nasci e nesta terra vão se criar nossas crianças

Marcio Tserehité Tsererãi’ré

A saída dos invasores, porém, não seu de forma pacífica e foi necessária a intervenção da Força Nacional para poder retirar as pessoas que permaneciam na área. Houve enfrentamentos organizados com a policia e atos vandálicos para destruir (ainda mais) a terra dos indígenas.

Fruto desses meses de tensão que vivemos no Araguaia, o Bispo Pedro Casaldáliga teve que abandonar a sua casa, aos 84 anos, pelas ameaças de morte recebidas e com o objetivo de facilitar, na medida do possível, a devolução da terra aos Xavante.

Nesse território, os ancestrais, nossos bisavós viviam em cima da terra. Esse território é origem do povo de Marãiwatsédé, nessa terra amada foi criado o povo de Marãiwatsédé. Agora a desintrusão já começou, os anciões esperam muito tempo para tirar os não índios da terra, sofreram muito. A vida inteira sofrendo, esperando tirar os fazendeiros grandes.

Damião Paradizané

Primeiro Cacique de Marãiwatsédé

A situação dos Xavante hoje

Mais de 1.000 Xavante moram hoje na Terra Indígena Marãiwatsédé.

No entanto, os A‘uwê Uptabi (“gente verdadeira”), como eles se autodenominam, retornaram a uma terra que tem sido destruída; bem diferente daquela que conheceram 50 anos atrás.

Marãiwatsédé, que foi o lar farto dos Xavante por séculos, enfrenta hoje o desafio vital da escasez de alimentos, da falta de água, dos solos degradados por causa do desmatamento e, ainda, as invasões pontuais e os incêndios criminosos que, ainda hoje, se registram na área.

Retornar a uma terra que foi desmatada, queimada e invadida por mais de 50 anos é o desafio que enfretam os jovens Xavante de Marãiwatsédé. Foto: Liebe Lima / AXA.

Apesar dessas dificuldades, os Xavante estão conseguindo se apropriar de seu território ancestral e construir novas aldeias, como é seu costume.

Aos poucos, entre todos/as, estamos ajudando a recuperar ambientalmente a sua terra (mas sabemos que é um processo de décadas) e, com ela, recuperando os rituais Xavante e re-construíndo seu modo de viver e ser.

O caminho é longo e vai ser muito difícil. As ameaças não faltam.

Mas, o Povo Xavante de Marãiwatsédé não tem medo. Para eles, a esperança sempre vence!

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