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Nasce a Fundação Pedro Casaldáliga

Nasce a Fundação Pedro Casaldáliga

Completando seis meses da morte de Dom Pedro Casaldáliga nesta segunda-feira (08.02), a Associação Araguaia com o Bispo Casaldáliga da Catalunha e a família Casaldáliga, representada pelas suas sobrinhas, anunciaram a criação Fundação Pedro Casaldáliga. A instituição deve contar com frentes de atuação no Brasil e na Espanha para manter viva a história de vida do bispo, considerado um dos nomes mais importantes da Igreja Católica no Brasil.

Conforme divulgado pelos fundadores, o objetivo é recuperar, aprofundar e divulgar o pensamento de Pedro Casaldáliga promovendo estudos, pesquisas, palestras e encontros de pessoas interessadas no legado do bispo. “O legado de Pedro Casaldáliga é muito amplo e o objetivo da Fundação é preservá-lo, torná-lo conhecido e continuá-lo. Além disso, zela pelo bom nome da figura de Pedro Casaldáliga e da sua mensagem”, afirmam.

Além da manutenção da memória de Dom Pedro, a Fundação tem como objetivo colaborar ativamente na defesa de pautas como Reforma Agrária, as causas indígena, quilombola e ecológica, questões que estiveram no centro dos debates levantados pelo “Bispo do Povo”, como ficou conhecido.

O trabalho da Fundação deve contribuir ainda para o fortalecimento da atuação da Associação Ansa do Araguaia, que trabalha com  o reflorestamento de áreas da Amazônia e do Cerrado que foram destruídas pela ação da implementação do agronegócio. Além disso, atua incentivando e apoiando a construção de hortas e pomares para a alimentação de famílias do campo. Para isso, periodicamente  cursos, encontros e palestras de formação tanto técnica, quanto política são ministrados.

Desse modo, a Fundação desenvolverá atividades editoriais, arquivísticas, culturais, educacionais e de sensibilização. “Estamos comprometidos em divulgar a vida, a obra e as causas do bispo Pedro Casaldáliga, sendo referentes da sua mensagem e lutando pelas suas causas. A Fundação ajuda no cuidado da memória e do legado de Pedro Casaldáliga, na Catalunha e no Brasil, e continua sua luta em favor de suas causas”, traz a divulgação.

Matéria de Safira Campos para pnbonline.com.br

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Este era o papel da mulher na diocese de Casaldàliga

Este era o papel da mulher na diocese de Casaldàliga

Uma Igreja comunitária, sem hierarquias, com plena igualdade e sem rótulos. Esta é a Igreja que o bispo claretiano, Pere Casaldàliga, promoveu em sua diocese, São Félix do Araguaia. Após sua morte em agosto, muitas vozes têm se dedicado a lembrar seu estilo eclesial e sua disposição. A Associação Araguaia e a ANSA publicaram cinco breves testemunhos de mulheres que compartilharam a fé e a missão evangélica com o bispo Pedro.

“Pedro nos convidou a criar um modelo circular e inclusivo de Igreja, inserido na vida do povo, em suas lutas e resistências, diante das ameaças e violências do latifúndio e da ausência e omissão do Estado”. Este é o testemunho de Jeane Bellini, membro da equipe Casaldàliga entre 1983 e 2005.

Bellini explica que desde o início ela propôs a eles “formar equipes mistas de homens e mulheres, leigos, religiosos e sacerdotes, sem hierarquias”. Eles viveram com as pessoas do vilarejo e enfrentaram juntos os desafios. “Aprendemos muito, foi um caminho marcado por momentos fortes de vitórias, mas também por muitas derrotas”, diz ele.

Uma Igreja – o povo de Deus – sem hierarquias

 

Tudo isso com uma experiência religiosa: “Nós imbricamos a espiritualidade de Pedro, que permeava tudo o que ele fazia. Celebramos tudo, vida, morte, luta, derrota e vitória”, diz Bellini.

Ele sublinha o privilégio, ao longo de 22 anos, “de fazer parte da construção de um modelo de Igreja – Povo de Deus, sem hierarquias”. Eles não usaram os títulos de leigo, leiga, padre, irmã ou bispo. “Nós nos reconhecemos pelo nome, não por categoria. Cada membro da Igreja, da equipe pastoral, assumiu e compartilhou essa missão.

Este é também o caso de Selme de Lima Puente, que viveu mais de 20 anos na Prelazia de Casaldáliga: “Durante minha estada em São Félix, eu rezei missa muitas vezes, até mesmo na catedral. Eles nunca me proibiram, ao contrário, sempre me encorajaram a fazê-lo e a me preparar.

De Lima fez um curso no Centro de Estudos Bíblicos, CEBIO, por correspondência e Teologia do Pluralismo Religioso pela Internet. Ele se lembra de “sentir sempre a alegria de Pedro” quando viu que ele estava avançando em sua formação. Na missa, ele não só leu o Evangelho, mas também deu algumas homilias, lembra-se ele.

“Nunca houve nenhuma reunião separada entre padres e freiras para tomar decisões”.

 

A mãe de Dail Rodrigues da Silva, também era uma mulher ativa na comunidade de Casaldàliga. E Dail nasceu e viveu na Prelazia de São Félix do Araguaia. Durante seis anos, ela foi uma agente pastoral. Ela fez parte dos conselhos de várias comunidades locais e regionais e também da assembléia geral da Prelatura. “Eram lugares onde todos tinham direito, uma voz e um voto”, disse Rodrigues.

A cultura democrática permeava o dia-a-dia das comunidades, sem distinção entre homens e mulheres, leigos e ordenados: “Nunca houve um encontro separado entre padres e freiras para tomar decisões sobre a vida da comunidade ou da Prelazia. E ele lembra: “Tanto Pedro como os outros tinham o mesmo direito de falar e decidir que tudo era debatido, refletido ou votado”.

No fundo havia uma responsabilidade conjunta: “Nem o Evangelho nem a partilha da palavra era responsabilidade exclusiva dos sacerdotes, mas uma responsabilidade de toda a comunidade”. E também “as casas das equipes pastorais eram casas da comunidade, não a casa do padre” onde “mulheres e homens eram recebidos e tratados com o mesmo carinho e respeito”.

 

“Por que as mulheres não podem celebrar a missa?”

 

Tânia Oliveira passou 20 anos com a Casaldàliga. E ela viveu três anos na casa de Casaldàliga. No primeiro ano, com ele e a Irmã Irene. “Sempre me senti respeitado e valorizado como missionário leigo”, diz ela.

Uma vez sua filha, embora pequena, de seis ou sete anos de idade, perguntou-lhe: “Pedro, por que as mulheres não podem celebrar a missa? Peter, respondeu, com um largo sorriso: “Gabriella, eu esperava ver isso acontecer”. Não acho que viverei o suficiente para vê-lo, talvez sua mãe o faça, mas estou mantendo viva a esperança de que você o fará. E ele acrescentou: “Não há nada que impeça as mulheres de fazer o mesmo que nós padres fazemos e, na verdade, acho que você pode fazer muito melhor”!

Casaldàliga tinha um caráter questionador. Isto também é demonstrado pela anedota de Maria Aparecida Rezende, que nasceu e vive em Araguaia. Quando ela tinha 14 ou 15 anos e, após sua primeira comunhão, ela começou a ser catequista. “Em uma ocasião, tivemos um encontro de jovens para preparar a missa. Era um dia de festa e tínhamos que organizar a igreja e preparar a missa com Pere e Padre Clélio”.

Houve uma discussão porque “os meninos queriam preparar a missa porque eram homens e não queriam limpar a igreja e os bancos”. Em certo momento, Pere disse ao grupo: “Hoje teremos uma missa feminina”. Os rapazes vão lavar a igreja.

Rezende se lembra com surpresa: “Os meninos fariam ‘trabalho de mulher’…” E ele diz que quando eu lhe falei sobre isso em casa, seus irmãos disseram que as pessoas da Prelazia eram muito estranhas. E ele conclui: “Pedro nos ensinou que fazer comida, lavar pratos ou preparar a casa também era um trabalho de homem. As pessoas do interior, do campo, acharam muito estranho, mas pouco a pouco se acostumaram.

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As 4 causas da destruição da Amazônia

As 4 causas da destruição da Amazônia

As 4 causas da destruição da Amazônia

2 de novembro de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

No ano passado foi notícia mundial: A Amazônia está sendo destruída por incêndios sem precedentes.

Fotografias chocantes das queimadas que atingiram matas e florestas apareceram nos noticiários de televisão, nos jornais e sites na Internet.

Muitas ONGs, movimentos e até atores internacionais publicaram documentos exigindo soluções diante desse crime ambiental contra a humanidade.

Queimada em uma das comunidades onde trabalhamos no Araguaia.

A realidade, porém, é que a Amazônia vem sendo queimada há muitos anos.

Há décadas que as famílias que moram aqui denunciam e reclamam que a destruição da floresta prejudica seus plantios, sua saúde e limita a sua capacidade de obter alimentos e até de dispor de água!

No entanto, 2019 e 2020 serão lembrados como anos em que a Amazônia queimou como fazia décadas não o fazia. A destruição deste bioma fundamental atingiu limites insuspeitados.

Por quê? O que aconteceu nesta região do Araguaia? Por que a Amazônia queima tanto? Estes são 4 dos motivos principais!

1. O cenário perfeito

A região da Prelazia de São Félix do Araguaia abrange uma área de aproximadamente 150.000 km2 dentro da Amazônia Legal . Está situada ao nordeste do estado de Mato Grosso, na divisa com o Tocantins e o Pará, a cerca de 1.200 km ao norte da capital brasileira, Brasília.

O primeiro elemento que precisamos considerar para entender os incêndios é, portanto, “as distâncias”: o espaço ocupado pela Prelazia de São Félix do Araguaia é maior que toda a Grécia ou toda a Nicarágua…e equivalente a todo o Ceará! .

A região do Araguaia se encontra na Amazônia Legal, a 1.200 ao norte de Brasília, entre os biomas Cerrado e Amazónico.

Nesta extensa região temos o privilégio de testemunhar uma rica transição de biomas: do Cerrado, o bioma mais biodiverso do mundo, até a Amazônia. Esse fato confere uma riqueza única de formas de vida vegetal e animal, que se estende desde as savanas do Cerrado até a densa floresta amazônica.

A característica geográfica mais marcante, no entanto, é que esta região está localizada entre dois dos grandes rios da América Latina: o Rio Araguaia e o Rio Xingu.

Também tem dentro de seus limites duas grandes e lendárias terras indígenas de proteção ambiental: o Parque Indígena do Xingu, a oeste e a Illa del Bananal, ao leste.

Esta configuração implica também que a região possui poucas estradas de acesso, muitas das quais em condições precárias.

A rodovia principal é a BR-158, que corta a região de norte a sul e ainda tem mais de 200 km sem asfalto. Isso significa que neste Araguaia viajar para qualquer cidade de mais de 50.000 habitantes significa fazer entre 15 e 24 horas de ônibus.

Vista aérea da cidade de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, na divisa com o estado de Tocantins.

Trata-se de uma região pouco povoada, pois em 2010 (último censo oficial) moravam aqui 125.271 pessoas. Nenhum dos 15 municípios que formam a área da Prelazia de São Félix do Araguaia supera os 35 mil habitantes. Neles, 43% da população vive na área rural.

Confresa, atualmente com 30.000 habitantes (estimativa), e Serra Nova Dourada, onde moram 1.365 pessoas, são os municípios mais grande e mais pequeno respectivamente.

Nesse sentido, é preciso entender a Amazônia e, concretamente esta região do Araguaia como uma enorme extensão, do tamanho de alguns países, relativamente pouco habitada, onde as cidades estão separadas por grandes distâncias e as vias de acesso são muito precárias.

2. O material inflamável

No Araguaia, o principal sector económico são os serviços, que representam a metade da economia regional. A outra economia é a produção agrícola.

Os serviços incluem actividades como o comércio, a construção e as relacionadas com a administração pública.

Ja a produção no campo se concentra na cria extensiva de gado e na produção de soja e outros grãos em grande escada.

De fato, uma das particularidades da ocupação do território no Araguaia é a relação entre a população humana e o rebanho bovino: Aqui temos 22 cabeças de gado por cada habitante.

No Brasil há 53 hectares de terras dedicadas à pecuária: equivalentes a toda França.

Há de certo uma há uma causalidade estreita entre a baixa densidade populacional e o peso da pecuária: a pecuária extensiva precisa de grandes territórios para se desenvolver, com mão de obra escassa, para que processos limitados de acumulação de capital sejam gerados em relação ao espaço ocupado.

O resultado são as baixas taxas de densidade populacional em comparação com outras regiões com uma economia mais avançada e diversificada.

Este modelo económico foi construido sobre a base de uma forte política de incentivos fiscais que pretendia a instalação de grandes projetos agrícolas na Amazônia e que começou a ser incentivada sistematicamente na década de 1960…e que se tem fortalecido nas últimas décadas e adotado como política federal desde a chegada de Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, as políticas públicas para os agricultores familiares tem priorizado o mesmo modelo produtivo das grandes : nesta região tem animado e incentivado financeiramente o desmatamento e a monocultura.

O modelo económico que os poderos escolheram para a região vem sendo implementado há 60 anos: primeiro, apoiado e financiado pela ditadura militar e executado pelo latifundio; e, nas últimas décadas, pelo financiamento público (de novo), veiculado pelas grandes coorporações sobre a base das escassas e mal executadas políticas realistas para a vida das famílias no campo.

3. O combustível mais eficaz

Ao mesmo tempo em que a pecuária aumentou exponencialmente durante os últimos 15 anos (concretamente em 15 milhões de cabeças de gado), tem havido uma presença crescente da agricultura industrial em grande escada. A soja é o principal cultivo e ocupa quase 80% do total das áreas agrícolas da região.

Para a safra (colheita) de 2020 calcula-se que serão recolhidas 34 milhões de toneladas de soja, plantadas em 9,82 milhões de hectáres, só no Estado do Mato Grosso: uma superficie equivalente ao Pernambuco ou a Santa Catarina inteiros….sem uma árvore, sem um animal…apenas com soja para exportar à China e à Europa.

Vídeo da estrada que percorre a região do Araguaia, a BR158, em seu passo pelo municipio de Ribeirão Cascalheira, com quilômetros e quilômetros de soja.

A relação é muito clara e não admite muita discussão:o modelo agroindustrial é a principal causa da destruição ambiental, social e económica da Amazônia.

4. O Incendiário

No marco desta situação e desta história, temos de acrescentar ainda as declarações, o clima criado e as políticas implementadas pelo governo Bolsonaro na Amazônia: as ações intencionalmente orientadas a promover e apoiar o modelo agroindustrial e a elimininar, portanto, as formas de vida alternativas, respeituosas com as pessoas e o meio ambiente, vem sendo impostas desde 2019 e deixando um rastro de destruição, discriminação, racismo e concentração de renda em toda a região.

O trabalho que se tinha conseguido fazer nos últimos 40 anos, de conscientização, de olhar a diversificação da produção como uma riqueza para a Humanidade, de re-plantar zonas que tinham sido desmatadas, etc, está seriamente ameaçado.

Bolsonaro tem eliminando os mecanismos financeiros que ajudavam à preservação da Amazônia e esvaziado os órgãos públicos que se dedicam à vigilância ambiental, animando o desmatamento e a grilhagem de terras.

Assim, sobre a base de uma história caracterizada pela distribuição desigual de terras, pela desigualdade e a pobreza, pela escassa presença do estado e pela implementação de um modelo produtivo baseado na monocultura da soja e da pecuária extensiva, temos que acrescentar agora as políticas públicas que encorajam os latifundiários, negam a destruição da natureza e criminalizam os Povos Indígenas e a Sociedade Civil organizada. É fácil entender, então, que temos a conjuntura perfeita que explica porque a Amazônia, o Pantanal ou Cerrado estão sendo destruídos como nunca.

Raul Vico. Associação ANSA e Associação Araguaia com o Bispo Casaldáliga.

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Com 700 mil casos confirmados e mais de 36 mil mortos, o Brasil já é o terceiro país com mais mortes pelo Coronavirus em todo o mundo. Na Amazônia, a doença já atingiu mais de 181.000 pessoas. Quais são as razões por trás dessa tendência no Brasil?

8 de junho de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

O Brasil é o terceiro país do mundo mais afetado pelo Coronavirus, atrás apenas dos Estados Unidos e do Reino Unido. Embora, obviamente, a incidência do vírus se manifeste especialmente nas cidades com maior densidade populacional, o alto número de positivos detectados nos estados da Amazônia Legal surpreende as autoridades.

Os mais preocupante, no entanto, não são apenas os dados absolutos, mas o fato que o Brasil é o país onde a pandemia está se espalhando mais rapidamente.

O que essa tendência explica acima da média mundial?

1. A atitude de seu presidente

Desde o início da pandemia, e imitando Trump, o Presidente Bolsonaro lançou uma campanha para minimizar a gravidade do COVID-19.

Contrário a qualquer medida de isolamento ou confinamento,o presidente da extrema-direita tem mantido um discurso baseado na defesa de que o Coronavírus é um “gripezinha”.

Desde que assumiu a Presidência do Brasil, em 2019, Bolsonaro tem se caracterizado por suas declarações xenofóbicas, homofóbicas, contrárias aos povos indígenas e até favoráveis à ditadura militar e à tortura. Em seu governo, há mais de 3.000 militares ocupando várias responsabilidades, tendo substituído técnicos, cientistas e acadêmicos.

As ideias extravagantes e provocativas de Bolsonaro fizeram também com que dois ministros da saúde renunciassem em menos de 4 meses, em plena pandemia.

A relação é clara: toda vez que Bolsonaro aparece na televisão, no rádio ou nos jornais minimizando a gravidade da COVID19, mais pessoas vão às ruas ignorando as medidas de confinamento que prefeitos e governadores tentam implementar.

2. Um dos países mais desiguais do mundo

La família de la Darlete viu a l'Assentament Dom Pedro

A Darlete e seus 7 filhos vivem no assentamento Dom Pedro. O governo ajuda com R$205,00 por mês.

A Darlete mora no assentamento “Dom Pedro”, uma extensa comunidade rural onde há 400 famílias. Mãe de 7 filhos menores de idade, sua renda depende do que ela consegue vender na feira quinzenal de São Félix do Araguaia: algumas frutas, legumes e leguminosas que leva à feira em uma viagem de 6 horas na caçamba de um caminhão.

O único auxílio que a família da Darlete recebe são os 205,00 reais do Bolsa Família.

Na comunidade onde o Darlete mora, para ir ao médico (ou ao banco, ou aos correios) tem que fazer 3 horas de viagem por uma estrada de terra que na época das chuvas vira uma grande poça de lama. As mais de 400 famílias que vivem no assentamento Dom Pedro não possuem rede de água ou esgoto.

A situação não é melhor nas grandes cidades: 6% da população do Brasil -mais de 12 milhões de pessoas, mora em “favelas”, onde a densidade populacional é muito alta e a renda média não chega aos 500 reais por mês. Nessas grandes comunidades, muitas vezes também não há rede de água tratada, esgoto e nem coleta de lixo…

Por esses motivos, em boa parte do Brasil, ficar em casa é sinônimo de fome. Para muitas famílias, ir para a rua, se relacionar, vender seus produtos informalmente e continuar fazendo seu serviço diário é a única opção que têm para sobreviver.

3. Um sistema de saúde precário

Uma grande parte do sistema de saúde brasileiro é privada. Além disso, embora alguns aspectos do setor público de saúde tenham melhorado nos últimos anos, é um sistema muito precário que não atinge grande parte da população. No Brasil, uma grande parte da população não tem assistência médica.

No Araguaia, uma das regiões mais distantes e isoladas, um único hospital, com 1 respirador, é responsável por atender uma área equivalente a todo o Estado de Alagoas e muitas das comunidades rurais se encontram a 3 ou 4 horas do médico mais próximo.

Nesse contexto, o descontrole da doença é evidente e, além disso, é plausível pensar que há muitos mais casos que o sistema de saúde não está diagnosticando.

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Estas são algumas das pistas essenciais para alcançar “transformações da consciência”.

Atitudes profundas que emergem de outra visão sistêmica, inteiramente ecológica, que ajuda a salvar a vida e o planeta.

14 de abril de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

1. SUPERAR O AMBIENTALISMO

Em geral, muitas pessoas, empresas, ONGs e até governos estão preocupadas/os com o meio ambiente e a ecologia. São as que costumamos chamar de ambientalistas, comprometidas/os com a preservação do meio ambiente, da natureza, do planeta… Chamamos de “ambientalismo” essa atitude que, felizmente, está crescendo nos últimos anos. Porém, agora urge ir além do ambientalismo e passar a uma atitude de “ecologia integral”. Qual é a diferença entre as duas?

Ambientalismo, atitude ecológica incompleta

Os ambientalistas atuam como bombeiros, apagando incêndios: hoje reivindicam que um parque seja declarado nacional, amanhã protestam contra a construção de uma represa, no dia seguinte contra a mina e assim por diante. É ótimo que façam isso! Uma ação essencial, porém não é suficiente e não resolve os problemas; simplesmente cura sintomas, embrulha em esparadrapos, permitindo que o problema principal, a causa mais profunda, continue.

Vista do rio Araguaia ao passar por São Félix do Araguaia, no estado de Mato Grosso, Brasil.

A atitude superficial identifica os problemas ecológicos naquilo que impede o funcionamento da “sociedade moderna desenvolvida” (esgotamento ou contaminação dos recursos naturais, desastres, etc)

A atitude superficial identifica os problemas ecológicos naquilo que impede o funcionamento da “sociedade moderna desenvolvida” (esgotamento ou contaminação dos recursos naturais, desastres, etc). Não quer questionar o mito o desenvolvimento ilimitado, do crescimento econômico constante…

Assim, mentalmente, o ambientalismo continua dentro do sistema, derivado da mesma mentalidade que causou os problemas ecológicos. Propõe uma política de soluções que não erradicam o mal, mas simplesmente tratam de aliviar as consequências e, com isso, o prolongam.

Atitude ecológica radical

Outra atitude é a de cunho radical, pois quer ir à raiz do problema. As várias correntes ecológicas com essa orientação se assemelham ao identificar a raiz nas ideias e representações que possibilitaram a depredação da natureza e levam o mundo ocidental à autodestruição.

Esta é a raiz do problema, porque é a raiz do sistema que o causou.

Por isso, os ecologistas propõem lutar por uma mudança nas ideias profundas que sustentam nossa civilização e configura a forma de relação com a natureza, relação que levou ao desastre atual e a uma possível catástrofe.

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Feito desde o Araguaia e desde Barcelona!

A atitude ecológica radical implica uma crítica aos fundamentos culturais do Ocidente. Questiona fundamentalmente:

a) a primazia absoluta que damos aos critérios econômico-materiais para medir a felicidade e o progresso;

b) a crença na possibilidade de um crescimento constante e ilimitado na economia, em luxos e na população humana, como se não houvesse limites ou não os estivéssemos ultrapassando;

c) a crença de que a tecnologia e o crescimento solucionarão todos os problemas;

d) o absurdo de uma economia que quantifica tudo, exceto os gastos ecológicos e, sobretudo, a ignorância quanto à complexidade da vida, a sacralidade da matéria e a força espiritual do Universo.

A forma tradicional de pensar e o paradigma antiquado, que tem raízes filosóficas e até religiosas, posicionaram-nos historicamente em guerra contra a natureza, contra a biodiversidade, contra os bosques, os rios, a atmosfera, os oceanos.

Somente mudando a forma velha de pensar nos reconciliaremos com o planeta. Se não erradicamos a forma de pensar, razão pela qual estamos destruindo o planeta, as atitudes ambientalistas serão inúteis, apagando incêndios causados por uma mentalidade, deixando que siga em pé a mentalidade velha, causando desastres ecológicos todos os dias.

A maioria dos incêndios na Amazônia são provocados para “abrir” novas áreas de criação de gado ou de plantio de soja, destruíndo vegetação milenar e contaminando a atmosfera. Fotografia: no assentamento Dom Pedro, aqui no Araguaia. Queimada de 2019.

Visão holística

Uma visão nova, não antropocêntrica, mas holística: o ponto de vista agora é a partir do todo (natureza), e não a partir da parte (o ser humano). E acreditamos na primazia do todo sobre a parte. 

O humanismo clássico postulava que o ser humano era o único portador de valores e significado e que todo o resto era matéria bruta a seu dispor. É uma visão enormemente equivocada, que nos colocou contra a natureza e que precisa ser erradicada.

Somente se abordarmos uma “reconversão ecológica” de nosso estilo de vida, de nossa mentalidade, incluída a espiritualidade, estaremos no rumo do “retorno à Casa Comum”, à Natureza da qual nos exilamos indevidamente em algum momento do passado..

Captar as razões mais profundas, os motivos que vão à raiz e descobrir a ecologia como caminho integral de sabedoria para a própria realização pessoal, social e espiritual significam chegar a descobrir a “ecologia integral”, para viver a comunhão e a harmonia com tudo o que existe e tudo o que somos em plenitude, sabendo-o e saboreando-o, de forma integralmente ecológica, sem recair em atitudes breves, simplesmente ambientalistas, no meio do caminho.

Somente se abordarmos uma “reconversão ecológica” de nosso estilo de vida, de nossa mentalidade, incluída a espiritualidade, estaremos no rumo do “retorno à Casa Comum”, à Natureza da qual nos exilamos indevidamente em algum momento do passado.

2. UMA NOVA COSMOLOGIA

O mundo que conhecemos hoje é totalmente diferente do mundo que pensávamos que era. É um “outro mundo”. E por causa disso, nós, que somos parte e resultado dessa nova visão de mundo, acabamos sendo algo diferente do que pensávamos.

A partir da nova visão que a ciência torna possível hoje em dia – pela primeira vez na história da humanidade –, é preciso agora “reconverter tudo”, reelaborar e reformular aquilo em que até agora acreditávamos – nossa ideia do mundo, do cosmos, da matéria, da vida, de nós mesmos, do espiritual. Tudo é diferente a partir da nova visão.

Temos que nos reinventar, recriar, é hora de reconverter a partir de uma nova visão da ecologia integral.

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3. UMA NOVA VISÃO DO MUNDO

As pessoas e a sociedade ainda são portadoras da visão tradicional de mundo, que o concebia como um aglomerado de objetos (não comunidade de seres vivos, nem mesmo como um quase organismo vivo).

Durante os últimos séculos, foi inteiramente dominante a divisão cartesiana da realidade em coisas materiais, extensas (físicas, inanimadas, materiais, organizadas mecanicamente) e entidades espirituais, pensantes, com consciência, incorpóreas.

Todo o mundo extenso estaria composto de matéria, essa realidade física compacta, inanimada, passiva, sem vida, estéril por si mesma. Os animais não deixariam de ser máquinas bem organizadas, porém desprovidas de entidade mental ou espiritual. Tudo seria objeto, todo um mundo de objetos, no que estaríamos decepcionantemente sozinhos, sem ninguém com quem partilhar fora de nós mesmos.

Há somente uma árvore genealógica no planeta, que agrupa e inclui todos os seres vivos (humanos, inclusive).

Outra visão da vida

A visão tradicional que temos dos demais seres vivos é de seres inferiores, classificados em espécies e famílias separadas, “criadas” de um modo fixo e estável desde o princípio, independentes, sem parentesco. Hoje, as ciências ecológicas dão uma visão totalmente diferente.

Sem que saibamos ainda se a vida brotou em nosso planeta ou chegou aqui trazida por meteoritos, o que parece certo é que toda a vida do planeta está emparentada. Somente uma, porque é a mesma, mas evoluída com uma criatividade inimaginável.

Não existem famílias vegetais e animais soltas, independentes, que partilham somente aparências externas. Na verdade, todos os seres vivos são membros de uma mesma e única família. Há somente uma árvore genealógica no planeta, que agrupa e inclui todos os seres vivos (humanos, inclusive).

A biosfera

Não é um aglomerado de seres vivos amontoados na superfície do planeta. Mas uma rede de sistemas, de sistemas de sistemas, interdependentes, retroalimentados, que dependem de interações de variáveis sutis que mantêm estáveis os equilíbrios do que depende o bem-estar comum.

A hipótese “Gaia”, de James Lovelock, fez pensar: o planeta azul, revestido da capa sutilíssima de vida, a biosfera, está vivo, a seu modo; porém mantendo o substancial do que chamamos “ser vivo”: uma capacidade auto-organizativa e autorreguladora que permite a continuidade estável da vida dentro de seus limites, sem deteriorar-se, mantendo-se contra o tempo.

Para os povos indígenas, a separação entre pessoa-sociedade-natureza-cultura-espiritualidade é impensável. Tudo está relacionado e faz parte do mesmo conjunto. Fotografia: menino do Povo Xavante, na aldeia Marãiwatsédé. Articulação Xingu Araguaia (AXA).

4. UMA NOVA VISÃO DE NÓS MESMOS

Desde muito tempo atrás, os seres humanos nos consideramos como “outra coisa”, algo diferente de tudo o que existe no mundo, seres infinitamente superiores, e por isso com direito ao domínio absoluto sobre tudo o que existe na Terra.

Viemos de cima (de Deus), não de baixo (da Terra); de fora deste mundo (somos espirituais e imortais), não de dentro. Porém, as modernas ciências cosmológicas veem as coisas de outro modo.

Para compreender e expressar isso, criamos crenças e mitos religiosos com fins de “justificação”: teríamos sido criados por Deus separadamente, no sexto dia da criação, “à sua imagem e semelhança”; apenas nós. Viemos de cima (de Deus), não de baixo (da Terra); de fora deste mundo (somos espirituais e imortais), não de dentro. Porém, as modernas ciências cosmológicas veem as coisas de outro modo:

Somos terra

Não viemos de fora, mas de dentro: ou seja, viemos da terra. Nosso corpo é feito de átomos de elementos que não são eternos, com data de fabricação, elaborados pelas estrelas, na explosão das supernovas, que permitiram a aparição – pela primeira vez – do cálcio para nossos ossos, do ferro para nosso sangue, do fósforo para nosso cérebro.

Não viemos de cima, não caímos como um pacote pronto e preparado, mas somos uma espécie emergente, formada por evolução a partir de outras que nos antecederam.

• Nosso corpo, observado com olhos ecológicos que saibam ver, fala claramente de uma longa história evolutiva, de cujos êxitos ela guarda marcas em quase cada um de seus traços.

Nossa reflexão, nossa espiritualidade, e talvez a atual secularidade e pós-religiosidade são a evolução da Terra e da Vida além da evolução biológica e genética, além da evolução cultural. É a Terra e a vida que lhe dão alento, que vivem e se expressam em nós e nos transcende.

Questionarmos tudo isso e requestionarmos a velha forma de nos percebermos separados do mundo, superiores a ele, alheios a tudo o que é cósmico e ecológico significam que estamos voltando à nossa casa, ao nosso lar ecológico, de onde nunca deveríamos ter partido. É voltar a pôr os pés na Terra, no solo da Vida.

No assentamento Dom Pedro, a 100 km de São Félix do Araguaia, estamos construíndo um modo de vida junto à natureza. Cerca de 100 famílias fazem parte deste projeto. Fotografia: Associação ANSA

5. NOVA VISÃO, TAMBÉM DA ESPIRITUALIDADE

A Ecologia Integral é uma forma de observar (paradigma) que incorpora o marco da natureza: considerados parte da natureza, do mundo, da realidade cósmica. Também aquilo que é espiritual e religioso? Sim. Tudo.

Tradicionalmente nem sempre foi assim. Considerava-se que o espiritual era totalmente diferente do mundo material. O espiritual era o não material, o não corpóreo, o não terrestre. Acreditávamos que o espiritual pertencia a outro mundo, o mundo celestial, chamado de sobrenatural. O dualismo era considerado dado, separação radical entre os dois âmbitos.

A Eco-espiritualidade produz um sentido de pertencimento à Natureza, à Terra, à Vida, ao Universo, ao Todo Misterioso.

Ecoespiritualidade: experiência espiritualual

A ecoespiritualidade não é um saber intelectual, um conjunto de ideias, mas um saber-sabor cordial, processado com a inteligência ecossensível, com o coração.

É uma experiência de admiração extasiada da beleza assombrosa do cosmo percebida como verdadeira epifania do mistério.

Experiência contemplativa, transformadora, unitária, regozijante e, ao mesmo tempo, de êxtase, que nos extrai de nós mesmos e nos transporta a um mundo inefável. Ela produz um sentido de comunhão no dual (não estamos separados do Mistério, que nos arrebata e extasia), e com ele um sentido de pertencimento à Natureza, à Terra, à Vida, ao Universo, ao Todo Misterioso.

Não é preciso nos afastarmos do mundo (ao contrário!) e nem nos submetermos a um processo de iniciação complicado: tudo isso está ao alcance de qualquer um que o realize.

Ecoespiritualidade e práxis

Ver e sentir de outra forma leva, inevitavelmente, a agir de forma diferente. Olhos que veem, coração que sente e mãos que atuam. Sentirmo-nos pertencentes à Terra nos leva a defendê-la como se fosse o próprio corpo, como a nossa Casa Comum.

Recuperar uma espiritualidade ecocentrada, livre da alienação milenar que fez nos sentirmos mais como filhos do céu do que da Terra, a única esperança para salvar a Vida e o Planeta, porque deixaremos de destruir a Terra apenas quando sentirmos seu caráter sagrado, e nos sintamos integralmente parte de seu Corpo divino.

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6. RECONVERSÃO ECOLÓGICA E REVOLUÇÃO CULTURAL

A cada dia, os meios de comunicação apelam ao “crescimento econômico”, como o único que importa. Crescer na renda econômica, no dinheiro, à custa do que quer que seja. É um discurso hegemônico em nossa sociedade.

Como no conto de Andersen: já tem bastante gente que intui o que é falso, que é precisamente o contrário do que estamos necessitando – não tanto crescer, quanto simplesmente desenvolver-nos, quer dizer, organizar-nos melhor, distribuir mais equitativamente, e deixar de destruir nosso próprio habitat, cuidar de nosso nicho ecológico, romper com hábitos e luxos supérfluos e daninhos. E, sobretudo, mudar o padrão energético atual.

Dizer que ainda há esperança e que ainda há tempo para mudar de direção é esconder que a catástrofe está aqui na frente. Daqui a “quatro dias”, geologicamente falando.

Temos que dizer a verdade: é uma emergência

Digamo-nos a verdade: já estamos à ladeira escorregadiça abaixo, em que os freios não obedecem e é praticamente impossível deter-se. Estamos defendendo a catástrofe. Só na teoria seria possível parar: na prática, na realidade, não o é. Dizer que, todavia, há esperança e que há tempo para corrigir a direção… na maior parte das pessoas que o dizem, é o desconhecimento, falta de rigor no planejamento, e talvez medo de parecer pessimista, ou boa intenção para não desanimar as pessoas, pensando que, com estímulos positivos, reagirão melhor, do que dizendo-lhes a verdade amarga da catástrofe que já temos aí adiante, dentro de “quatro dias”, geologicamente falando.

Sejamos realistas e digamos a verdade: já estamos na 6ª grande extinção, no caminho certo que conduz à grande catástrofe. Outra coisa é que, teoricamente, se poderia parar… Mas a realidade é que levamos uma grande inércia, que nos faz dificílimo parar, e para agravar, não estamos convencidos da necessidade de fazê-lo, nem estamos dispostos a assumir os grandes sacrifícios que teríamos de fazer para conseguir ir freando e, finalmente, determos na estrada até a catástrofe.

Só se mudarmos muito, muitíssimo, e só se o fizéssemos muito rapidamente, poderíamos evitar essa catástrofe, que agora mesmo é o mais provável.

Só se conseguirmos fazer uma reconversão sócio-politico-produtiva descomunal de nossa sociedade, e uma transformação radical de nosso estilo de vida, de nosso padrão energético e de nosso sistema de produção, poderíamos deter o desastre.

Só se mudarmos muito, muitíssimo, e só se o fizéssemos muito rapidamente, poderíamos evitar essa catástrofe, que agora mesmo é o mais provável. Se não o conseguirmos, ou – o que é pior – se simplesmente não fazemos nada – ainda que seja sem deixar de “falar” no assunto – a catástrofe está garantida. Continuar tendo medo em dizê-lo é um erro. Temos que dizê-lo.

Os povos indígenas “sentem a sacralidade da terra”. É por isso que valorizar e lutar pela preservação de sua cultura e visão de mundo também é um compromisso com a vida. Fotografia: Associação ANSA.

7. ECOLOGIA INTEGRAL NA PRÁTICA

Com toda a visão ecológica crítica a que hoje chegamos, é obvio que temos que mudar. Se sabemos que o mundo não é como havíamos imaginado; se nos sentimos de outra maneira; se percebemos que nossa conduta errada nos submeteu a um caminho de autodestruição, é urgente sermos coerentes com a nova visão integralmente ecológica.

Abandonar o atual modelo civilizacional, voltado inteiramente ao pós-“crescimento econômico”, contrário ao planeta e ao custo da vida – que já esgotamos e continuamos destruindo, na nova extinção massiva que inauguramos –, e colocar em marcha um novo sistema econômico integralmente funcional à conservação e ao crescimento da vida, e ao Bem Viver da humanidade em harmonia com nossa irmã e Mãe Terra. Eis a grande transformação que urge ser colocada em prática.

Com os novos fundamentos teóricos (a nova Visão que a Ciência permitiu) e com a força interior que nos dá a nova sensibilidade espiritual relacionada à natureza, podemos/devemos colocar em marcha novas práticas integradas com a visão integralmente ecológica. Temos que assumi-las com plena convicção, em nossa própria vida em primeiro lugar, e tratar de difundi-las militantemente.

Ja no hi ha temps per discutir, només urgeix tallar radicalment l’emissió de més CO2. S’ha de reduir dràsticament l’ús dels combustibles fòssils.

Uma mudança radical do sistema energético

Obviamente nos é essencial a energia para viver, e na Terra, e principalmente nos raios do sol, existe mais do que suficiente, abundantemente. O problema é que sem saber disso, construímos nossa civilização sob a energia do carbono, cujo dióxido (CO2) somente muito mais tarde soubemos que envenena a atmosfera e produz o efeito estufa. Já está em curso há tempos, e hoje sabemos que avança perigosa e, sem dúvida nenhuma, esses últimos anos tem sido os mais quentes de que se tem conhecimento. Não temos tempo de ficar discutindo, é urgente acabar totalmente com a emissão de mais CO2. É preciso reduzir drasticamente o uso dos combustíveis fósseis (petróleo, gasolina, gás, carvão) em favor de energias limpas e renováveis.

La consigna principal és viure amb austeritat, sense luxes innecessaris, sense nivells de vida ofensius per a la immensa majoria de la població mundial, que viu en la pobresa. Eradicar en mi el consumisme.

Uma mudança de estilo de vida

Muitas pessoas, em diversos lugares, fazendo coisas pequenas, em todos os aspectos da vida, marcarão uma mudança profunda na vida do planeta. Com isso, darão início a uma civilização nova, civilização da austeridade compartilhada e do Bem-Viver e em harmonia com a Mãe Terra:

•  Viver com austeridade, sem luxos, sem níveis de vida ofensivos para a imensa maioria da população mundial, que vive na pobreza

•  Erradicar o consumismo. Não comprar o que não é indispensável. Não querer sempre “o último modelo”. Zero de gastos inúteis. Não à dieta obsessivamente carnívora. Não às comodidades não essenciais e invertê-las em favor da ecologia.

• Utilizar menos água quente.

•  Zero de comida jogada ao lixo.

•  Apagar as luzes não indispensáveis, não utilizar o standby dos eletrodomésticos. Não comprar novos aparelhos quando não nos sejam imprescindíveis.

•  Os “5 Rs”: reutilizar, reduzir, recuperar, reciclar, regular, confere no google.

Trata-se de uma “transformação ecológica” e de uma “revolução cultural”: tudo é diferente, a única saída. O velho estilo de vida se torna “ecocida”: se não nos convertermos, nos suicidamos.

Uma opção pelo decrescimento

O “decrescimento” é uma correção do estilo de vida hoje urgente para retornar parte do caminho percorrido na autodestruição do planeta. É um tema delicado, pois há muitos inimigos, que esbarram em um dos “dogmas” mais sensíveis do sistema econômico, o do “crescimento contínuo, ilimitado”.

Mas em um planeta finito, em que já ocupamos muito do que ele precisa para repor nosso consumo, defender um crescimento ilimitado torna-se insustentável. Continuar reivindicando o crescimento ilimitado para dar a toda população mundial o nível de vida atual dos países desenvolvidos implicaria poder dispor de vários planetas; porém somente temos este. Pretender continuar crescendo desse modo é optar por auto asfixiar-nos.

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Nova visão, integralmente ecológica

Para uma boa prática, duas mudanças são prévias:

Mudança de pensamento: olhos que não veem, coração que não sente… A pessoa que ainda tem a velha imagem, que ainda está pensando que é um ser celestial que vive no meio de um mundo de meros objetos e animais inferiores, vai depreciá-lo, sem ter consciência das maravilhas que o rodeia no meio da Comunidade da Vida, e sem conhecer os mistérios insondáveis do Cosmos de que somos parte.

Mudança de espiritualidade: a espiritualidade tradicional olhava apenas o céu dos espíritos, não o mundo natural da Terra, e apenas nos remetia a textos sagrados espirituais. Parecia que uma pessoa era mais espiritual quanto mais se distanciava da Terra. Hoje estamos mudando; já intuímos que o espírito é inerente à matéria, que o mundo não é inimigo da alma e que podemos/devemos nos voltar à Terra como nosso lar espiritual.

Este texto é uma síntese da publicação na Agenda Llatinoamericana de 2017.

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20 de abril de 2020

As causas de Pedro Casaldáliga

Aos irmãos e irmãs dos movimentos e organizações populares.

Queridos amigos,

Lembro-me com frequência de nossos encontros: dois no Vaticano e um em Santa Cruz de la Sierra e confesso que essa “memória” me faz bem, me aproxima de vocês, me faz repensar em tantos diálogos durante esses encontros e em tantas esperanças que ali nasceram e cresceram e muitos delas se tornaram realidade. Agora, no meio dessa pandemia, eu me lembro de vocês de uma maneira especial e quero estar perto de vocês.

Nestes dias de tanta angústia e dificuldade, muitos se referiram à pandemia que sofremos com metáforas bélicas. Se a luta contra o COVID-19 é uma guerra, vocês são um verdadeiro exército invisível que luta nas trincheiras mais perigosas. Um exército sem outra arma senão a solidariedade, a esperança e o sentido da comunidade que reverdecem nos dias de hoje em que ninguém se salva sozinho. Vocês são para mim, como lhes disse em nossas reuniões, verdadeiros poetas sociais, que desde as periferias esquecidas criam soluções dignas para os problemas mais prementes dos excluídos.

Eu sei que muitas vezes vocês não são reconhecidos adequadamente porque, para este sistema, são verdadeiramente invisíveis. As soluções do mercado não chegam às periferias e a presença protetora do Estado é escassa. Nem vocês têm os recursos para realizar as funções próprias do Estado. Vocês são vistos com suspeita por superarem a mera filantropia por meio da organização comunitária ou por reivindicarem seus direitos, em vez de ficarem resignados à espera de ver se alguma migalha cai daqueles que detêm o poder econômico. Muitas vezes mastigam raiva e impotência quando veem as desigualdades que persistem mesmo quando terminam todas as desculpas para sustentar privilégios. No entanto, vocês não se encerram na denúncia: arregaçam as mangas e continuam a trabalhar para suas famílias, seus bairros, para o bem comum. Essa atitude de vocês me ajuda, questiona e ensina muito.

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Penso nas pessoas, especialmente mulheres, que multiplicam o pão nos refeitórios comunitários, cozinhando com duas cebolas e um pacote de arroz um delicioso guisado para centenas de crianças, penso nos doentes, penso nos idosos. Elas nunca aparecem na mídia convencional. Tampouco os camponeses e os agricultores familiares, que continuam a trabalhar para produzir alimentos saudáveis, sem destruir a natureza, sem monopolizá-los ou especular com a necessidade do povo. Quero que saibam que nosso Pai Celestial olha para vocês, vos valoriza, reconhece e fortalece em sua escolha. Quão difícil é ficar em casa para quem mora em uma pequena casa precária ou para quem de fato não tem teto. Quão difícil é para os migrantes, as pessoas privadas de liberdade ou para aqueles que realizam um processo de cura para dependências. Vocês estão lá, colocando seu corpo ao lado deles, para tornar as coisas menos difíceis, menos dolorosas. Congratulo a vocês e agradeço do fundo do meu coração. Espero que os governos entendam que os paradigmas tecnocráticos (sejam centrados no estado, sejam centrados no mercado) não são suficientes para enfrentar esta crise e nem os outros problemas importantes da humanidade. Agora, mais do que nunca, são as pessoas, as comunidades, os povos que devem estar no centro, unidos para curar, cuidar, compartilhar.

Eu sei que vocês foram excluídos dos benefícios da globalização. Não desfrutam daqueles prazeres superficiais que anestesiam tantas consciências. Apesar disso, vocês sempre sofrem os danos dessa globalização. Os males que afligem a todos, a vocês atingem duplamente. Muitos de vocês vivem o dia a dia sem nenhum tipo de garantias legais que os protejam. Os vendedores ambulantes, os recicladores, os feirantes, os pequenos agricultores, os pedreiros, as costureiras, os que realizam diferentes tarefas de cuidado. Vocês, trabalhadores informais, independentes ou da economia popular, não têm um salário estável para resistir a esse momento … e as quarentenas são insuportáveis para vocês. Talvez seja a hora de pensar em um salário universal que reconheça e dignifique as tarefas nobres e insubstituíveis que vocês realizam; capaz de garantir e tornar realidade esse slogan tão humano e cristão: nenhum trabalhador sem direitos.

Também gostaria de convidá-los a pensar no “depois”, porque esta tempestade vai acabar e suas sérias consequências já estão sendo sentidas. Vocês não são uns improvisados, têm a cultura, a metodologia, mas principalmente a sabedoria que é amassada com o fermento de sentir a dor do outro como sua. Quero que pensemos no projeto de desenvolvimento humano integral que ansiamos, focado no protagonismo dos Povos em toda a sua diversidade e no acesso universal aos três T que vocês defendem: terra e comida, teto e trabalho. Espero que esse momento de perigo nos tire do piloto automático, sacuda nossas consciências adormecidas e permita uma conversão humanística e ecológica que termine com a idolatria do dinheiro e coloque a dignidade e a vida no centro. Nossa civilização, tão competitiva e individualista, com suas taxas frenéticas de produção e consumo, seus luxos excessivos e lucros desmedidos para poucos, precisa mudar, se repensar, se regenerar. Vocês são construtores indispensáveis dessa mudança urgente; além disso, vocês possuem uma voz autorizada para testemunhar que isso é possível. Vocês conhecem crises e privações … que com modéstia, dignidade, comprometimento, esforço e solidariedade, conseguem transformar em uma promessa de vida para suas famílias e comunidades.

Mantenham vossa luta e cuidem-se como irmãos. Oro por vocês, oro com vocês e quero pedir ao nosso Deus Pai que os abençoe, encha vocês com o seu amor e os defenda ao longo do caminho, dando-lhes a força que nos mantém vivos e não desaponta: a esperança. Por favor, orem por mim que eu também preciso.

Fraternalmente,

Cidade do Vaticano, 12 de abril de 2020, Domingo de Páscoa.

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