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Os 8 traços fundamentais para se tornar um homem ou mulher “nova”

Os 8 traços fundamentais para se tornar um homem ou mulher “nova”

Com maior ou menor lucidez, com uma lógica vital mais ou menos consistente, faz tempo que descobrimos a sociedade como um sistema, dentro da estrutura que nos envolve e nos condiciona, sob a inevitável solicitação da conjuntura diária.

A Igreja, boa conhecedora da eternidade e menos conhecedora da história, durante séculos, muitas vezes, considerou apenas às pessoas ou os indivíduos; ou, ainda mais dicotomicamente, às vezes só considerava as almas…

Sem nunca deixar de enfrentar aquela globalidade estrutural na qual a história humana é forjada e dentro da qual o Reino acontece, devemos agora redescobrir, de forma comprometida, a pessoa, membro da sociedade e protagonista da história e do Reino.

O homem e a mulher são seres estruturados e estruturantes. A história, o sistema e o Reino o fazem, mas, por sua vez, ele faz o sistema, a história e o Reino.

Pedro passeando à beira do rio Araguaia

Em nossa América Latina, por exemplo, hoje acordando convulsivamente para a segunda libertação total, dois grandes homens marxistas proclamaram, com suas palavras e com suas vidas – e com sua morte-, a utopia do novo homem, o sonho incontrolável do “homem da manhã” : Ché e Mariátegui. E na revista “Amanecer” de março e abril deste ano de morte e Graça de 1982 acabo de ler um trecho do premiado livro do comandante sandinista, Omar Cabezas, sobre “o olhar do novo homem” e “o novo homem que está na montanha…”. [Casaldáliga se refere à obra disponível AQUI.]

A reflexão e a experiência de uma espiritualidade de libertação na América Latina (no Terceiro Mundo, no mundo em geral, creio sinceramente), deve ter como consideração e exigência básica a utopia necessária do novo homem.

Há dias estou tentando esboçar, para mim mesmo, os traços fundamentais do novo homem. E essa tentativa é o que ofereço agora, como uma contribuição gaguejante ao livro da DEI sobre “Espiritualidade e Libertação na América Latina”.

Nossos teólogos, nossos sociólogos, nossos psicólogos e nossos pastores dirão sua palavra principal, cientificamente. E nossos santos e nossos mártires tornarão realidade – eles já o estão fazendo com uma grande efusão – a face latino-americana do novo homem.

As características do novo homem seriam, em minha opinião:

1. A LUCIDEZ CRÍTICA

Uma atitude de crítica “total” aos supostos valores, mídia, consumo, estruturas, tratados, leis, códigos, conformismo, rotina…

Uma atitude de alerta, impossível de subornar.

A paixão pela verdade.

2. A GRATIDÃO ADMIRADA, DESLUMBRADA

A gratuidade contemplativa, aberta à transcendência e acolhedora do Espírito. A gratuidade da fé, o viver da Graça. Viver em um estado de oração.

A capacidade de ficar maravilhado, de descobrir, de agradecer.

Amanhecer todos os dias.

A humildade e a ternura da infância evangélica.

O maior perdão, sem mesquinhez e sem servidão.

3. A LIBERDADE DESINTERESSADA

Ser pobre para ser livre diante do poder e das seduções.

A livre austeridade daqueles que estão sempre em peregrinação.

Uma morigerada vida de combate.

A liberdade total daqueles que estão dispostos a morrer pelo Reino.

4. A CRIATIVIDADE EM FESTA

A criatividade intuitiva, desinibida, bem humorada, lúdica, artística.

Viver em estado de alegria, de poesia, de ecologia.

A afirmação de autoctonia.

Sem repetições, sem esquemas, sem dependências.

5. A CONFLITIVIDADE ASSUMIDA COMO MILITÂNÇA

A paixão pela justiça, em espírito de luta, pela paz verdadeira.

A teimosia incansável.

A denúncia profética.

A política, como missão e como serviço.

Estar sempre definido, ideologicamente e experiencialmente, do lado dos mais pobres.

A revolução diária.

6. A FRATERNIDADE IGUALITÁRIA

A igualdade fraterna.

O ecumenismo, por cima da raça e da idade e do sexo e do credo.

Conjugar a mais generosa comunhão com a salvaguarda da própria identidade étnica, cultural e pessoal.

A socialização, sem privilégios.

A verdadeira superação econômica e social das classes que existem, para o surgimento de uma única classe humana.

7. O TESTEMUNHO COERENTE

Ser o que se é. Falar o que se acredita. Acreditar no que se prega. Viver o que se proclama. Até as últimas conseqüências e nas minúcias diárias.

A disposição habitual para o testemunho do Martírio.

8. A ESPERANÇA UTÓPICA

Histórica e escatológica. Desde o hoje para o amanhã. A esperança credível das testemunhas e construtores da ressurreição e do Reino.

É sobre utopia, a utopia do Evangelho. O homem novo não vive apenas de pão; ele vive de pão e de utopia.

Apenas os homens novos podem fazer o mundo novo. Penso que estes traços correspondem aos traços do Homem Novo Jesus. Foi assim que Ele viveu utopicamente; foi assim que Ele ensinou em Belém, na Montanha e na Páscoa; foi assim que Seu Espírito, derramado em nós, nos configurou com cuidado.

 

Publicado no livro “Experiência de Deus e Paixão pelo Povo. Escritos Pastorais”, em 1983.

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Lançamento livro! : “Ventos de Profecia na Amazônia”

Lançamento livro! : “Ventos de Profecia na Amazônia”

No dia 8 de agosto completará um ano da morte do bispo Pedro Casaldáliga. Na mesma data, há exatos 50 anos, Pedro aceitava sua nomeação como bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Em 23 de outubro, será celebrado os 50 anos de ordenação episcopal de Pedro. No contexto destas celebrações, para resguardar a memória da trajetória desta Igreja que tanto impactou a igreja e a sociedade brasileira, será lançado o livro “VENTOS DE PROFECIA NA AMAZÔNIA: Os 50 anos da Prelazia de São Félix do Araguaia”.

A venda antecipada já está aberta
[Informação no final desta entrada]

 

O livro resgata a presença da Igreja na região, desde os primeiros contatos com os indígenas que lá viviam, passando pela criação e instalação da Prelazia, chegando aos dias atuais.

A figura proeminente desta história é a do missionário claretiano Pedro Casladáliga. Ele, com outros companheiros, assumiu o desafio de colocar as bases de uma nova Igreja no sertão do nordeste mato-grossense. O novo bispo e sua equipe, em radical fidelidade ao Evangelho de Jesus e guiados pelas decisões do Concílio Vaticano II e da Assembleia dos bispos latino-americanos, ocorrida em Medellin, Colômbia, colocaram-se abertamente ao lado dos pequenos e pobres que eram espoliados dos seus direitos: os indígenas, os posseiros e os trabalhadores braçais, os peões, submetidos a condições degradantes análogas ao trabalho escravo.

Pedro Casaldáliga conversa com amigos em sua casa

Pedro Casaldáliga conversa com amigos em sua casa de São Félix.

 

A dura e cruel realidade da região onde esta Igreja se estabelecia, foi retratada na Carta Pastoral que o novo bispo lançou no dia de sua ordenação episcopal: UMA IGREJA DA AMAZÔNIA EM CONFLITO COM O LATIFÚNDIO E A MARGINALIZAÇÃO SOCIAL.

A tomada de posição ao lado dos mais frágeis acarretou a Pedro e à equipe pastoral ameaças, ataques, prisões e tortura. Os donos das grandes fazendas e os agentes da ditadura que os protegiam e incentivavam, não admitiam uma igreja que não estivesse a seu lado. E os ataques também aconteceram no âmbito da própria Igreja, que não concordava com esta linha pastoral e por isso a acusavam de comunista.

Tudo isto é resgatado neste livro, que ainda traz um capítulo de como o próprio Vaticano se incomodava com esta Igreja e como quis enquadrar o bispo.

O livro narra também como era a organização interna da Igreja, em que bispo, padres, religiosas e leigos tinham voz e voto. Todas as decisões eram tomadas em conjunto e o bispo as assumia numa postura democrática. Em entrevista, depois da Páscoa de Pedro, o bispo de Juína, Dom Neri Tondello, disse que: “Pedro inaugurou no Araguaia há 50 anos um modelo de Igreja sinodal, que foi proposto no Sínodo da Amazônia realizado em 2019”.

O foco desta Igreja era a construção do Reino de Deus e, por isto, as ações no âmbito da educação, da saúde, da organização popular, da cultura eram consideradas ações pastorais.

O processo de sucessão de Pedro também é registrado e dom Leonardo Steiner, que o sucedeu, Dom Eugênio Rixen e Dom Adriano Ciocca Vasino, o bispo atual, eles mesmos contam sua atuação na Prelazia até o presente.

Ao final, como anexo, é reproduzida a Carta Pastoral Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social para que a conheçam os que dela somente tiveram notícia.

A publicação

Várias editoras foram procuradas, mas por causa da pandemia todo o seu cronograma de trabalho foi atrasado. Nenhuma tinha a possibilidade de disponibilizar o livro para as datas significativas que serão celebradas. Por isso decidiu-se apelar para outras alternativas, e a Editora da PUC Goiás aceitou fazer a publicação, mas as despesas de produção e expedição do livro serão do autor. Diante disto, optou-se pela venda antecipada, que já está aberta e cuja informação se encontra no final desta entrada.

O Autor

O autor desta obra é Antônio Canuto, que chegou a São Félix às vésperas do dia em que Pedro aceitou a nomeação de bispo e com ele colaborou na busca e organização dos documentos que compõe a segunda parte de sua Carta Pastoral. Acabou atuando na Prelazia por 26 anos, quando assumiu função na Secretaria Nacional da CPT em Goiânia (GO).

O Posfácio

O historiador Sérgio Coutinho diz: No final de tudo, penso que Canuto se parece mesmo, com este livro, com o nosso primeiro “historiador cristão”: São Lucas. Pois após acurada investigação de tudo desde o princípio, também a ele pareceu conveniente escrever de modo ordenado, às ilustres e aos ilustres “amigas e amigos de Deus” que estão na Amazônia, para que pudessem verificar a solidez dos ensinamentos que receberam do profeta Dom Pedro Casaldáliga e dos(as) muitos(as) “confessores da fé” (mártires) na região.

♥ Venda antecipada

Para possibilitar a edição deste livro apelamos à venda antecipada. O livro será remetido pelo Correio no final de julho, início de agosto.

Pode fazer a compra antecipada das seguintes formas:

  1. Entrando neste endereço: AQUI e ir no botão “Quero contribuir” e colocando seus dados e cartão.
  2. Podem fazer o depósito no Bradesco – Agencia 0140 – Conta 171688-3 em nome de Antônio Canuto e/ou CPF 146729361-04.

Pedimos que nos enviem uma cópia do comprovante de depósito em um dos nossos canais de comunicação para nosso controle:

Whatsapp: (62) 98640-0247

Telefone: (62) 3286-4853

E-mail: canuto@cptnacional.org.br

Não esqueçam de nos enviar o endereço postal bem completo para que possamos postar o livro pelo correio quando estiver pronto.

O preço de capa será de R$ 45,00.

A quem adquirir o livro na Venda Antecipada pagará somente R$ 35,00.

Já a compra antecipada de 5 a 10 exemplares custará R$  30,00  a unidade.

Acima de 10 exemplares, o valor será de R$ 25,00 a unidade.

Se alguém quiser somente um exemplar, mas deseja contribuir com um valor maior é só clicar no ícone “Quero contribuir”.

Preservação da memória e da casa do bispo Pedro Casaldáliga

Pelo menos 50% do lucro líquido da venda deste livro será destinado à preservação da memória e da casa onde Pedro viveu a maior parte dos seus dias em São Félix do Araguaia.

 

Publicado primeiro pela Comissão Pastoral da Terra.

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A Teologia poètica de Casaldáliga

A Teologia poètica de Casaldáliga

Em 1978, a Faculdade de Teologia da Catalunha, para comemorar seu 25º aniversário, decidiu por unanimidade de seu senado acadêmico nomear o Bispo Pedro Casaldáliga Doutor Honoris Causa. Mas houve um veto do arcebispo local, argumentando que Casaldàliga não era um teólogo, mas um poeta.

O teólogo benedictino Lluís Duch escreveu: “Casaldáliga não foi oficialmente reconhecido como teólogo: para ele talvez seja uma sorte; para a instituição poderia ter significado a possibilidade de reconhecer um profeta em sua pátria”.

Nessa ocasião, escrevi um longo artigo sobre a teologia poética de Casaldáliga, que enviei a ele.

Casaldáliga contempla o belo mundo indígena (o Araguaia, as garças brancas, a aldeia dos índios Tapirapé…) como um antecipo da Terra sem Males, agora destruído pelo maldito latifúndio e pelo Império. Ele chama Romero de “São Romero da América” e diz a Pedro para deixar a Cúria. Casaldáliga vive a paixão e a cruz com o povo, teme ser morto de pé, sobe e desce do Carmelo, sem ter nada, sem carregar nada, nunca se cansa de esperar pelo Reino. Enxerga o Ressuscitado junto ao mar de Tiberíades, com as feridas e as brasas ardentes do pão. Vive sob o vento do Espírito e se apresenta ao Pai com seu coração cheio de nomes.

Casaldáliga não sabia nada do que aconteceu em Barcelona e agradeceu o meu artigo. Mais tarde nos reunimos várias vezes na Bolívia e novamente em São Paulo em uma reunião de bispos e teólogos latino-americanos promovida por ele.

Casaldáliga tem sido um bom pastor, um místico, profeta e poeta, teólogo dos pobres, deste oitavo sacramento que o Espírito administra: a voz do povo! Talvez isso mesmo seja o que alguns acham difícil de reconhecer.

 

Texto de Víctor Codina, SJ

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Deus e a COVID19

Deus e a COVID19

Esta consulta é sobre o “papel” de Deus durante a pandemia de COVID19. Foi recebida no portal teológico amigo servicioskoinonia.org. Acreditamos que o ponto de vista que oferece pode ser interessante para você nos dias que estamos vivendo.

 

«Por favor, me ajudaria muito se pudessem me indicar alguma reflexão ou leitura que me ilumine sobre o seguinte dilema:

Em uma família cristã, um de seus membros está infectado com o coronavírus. Ele passa mal e é internado na UTI, mas felizmente se recupera e volta para casa com saúde; toda a família dá graças a Deus pela sua misericórdia, pela sua bondade e por ter cuidado de seu parente.

Na família vizinha, porém, também cristã, um de seus membros contraiu o coronavírus e, infelizmente, faleceu poucos dias depois. Aflitos e cheios de dor, eles não dão graças a Deus.

Alguém de uma terceira família pensa, entretanto, que sempre ‘tem que agradecer a Deus por tudo’.

Como pode ser explicado de forma simples e teológica que Deus é misericordioso e bom para TODOS, sempre? »


 

Olá amigo.

Veja bem, os três casos que você coloca estão dentro do mesmo pressuposto: lá em cima está Deus, que vê, sabe e pode fazer tudo e, portanto, pode nos proteger de qualquer dano. Essa “suposição” é o que filosoficamente chamamos de “teísmo”: uma forma de compreender a Realidade, que considera um segundo andar, um mundo sobrenatural paralelo, o céu, habitado por um Ser Supremo, criador, governante do mundo. Os gregos chamaram Ele de Theos … uma palavra que se transformou depois em Deus em latim e passou para o português. É por esse motivo que falamos em “teísmo”. A sua pergunta encontra-se, portanto, “dentro desta estrutura de compreensão” que você considera natural, o teísmo.

Porém, é tão difícil responder à sua pergunta, que, de fato, a humanidade ainda não conseguiu, e temos estado acompanhados por Theos por cerca de seis milênios. Filósofos antigos – alguns até cristãos – já o consideravam há mil e quinhentos anos nos mesmos termos que hoje. O dilema que eles colocavam era:

Suponhamos que Theos-Deus é onipotente e bom. Nesse caso:

– se ele pode nos livrar do mal e não quer fazê-lo, é porque não é tão bom;
– e se ele quer nos livrar do mal, mas não pode, é porque ele não é onipotente.

Como os filósofos não encontraram a resposta, tradicionalmente se fala do “mistério do mal”. Porque não se trata de um problema, mas de um Mistério; mistérios, de fato, não podem ser resolvidos; eles são inatingíveis para a nossa razão; apenas uma “fé” religiosa pode tentar.

Vejamos esse dilema desde o ponto de vista da fé tradicional, então.

Para algumas pessoas, a terceira família tem razão, pois a fé nos garante que Deus nos ama apesar de tudo, mesmo que não pareça, mesmo que nos envie a morte com a COVID19. Para a fé tudo é possível, porque acreditar em Deus significa confiar nele, cegamente, aconteça o que acontecer. A fé é uma afirmação voluntária de confiança e teimosa, contra todas as evidências. A fé teísta é um recurso muito valioso da natureza humana, porque nos transforma e nos dá uma força indestrutível. Nada é impossível para quem tem fé teísta: Deus estará sempre com essa pessoa, com essa comunidade ou com esse povo.

Essa terceira família tem mais fé do que você? Não, eles simplesmente tem uma fé “teísta”. Eles recorrem a esse recurso e é bom para eles. Você também pode fazer isso.

É essa “fé em Deus apesar de tudo” então, a resposta que você procura para o problema do mal? Para nós, não existe uma resposta única … existem muitas. E nenhuma delas é “obrigatória” ou definitiva.

Na verdade, já faz algum tempo que muitos cristãos pensam que o teísmo, essa forma de entender a realidade que diz que existe um Ser Onisciente e Onipotente lá em cima que cuida de nós e nos protege até com anjos da guarda, não é a melhor maneira de imaginar a estrutura e o funcionamento da realidade. Parece uma explicação feita sob a medida da nossa imaginação. Ou seja: uma explicação muito humana (antropomórfica, dizem): lá acima um Ser Supremo, uma Pessoa como nós, um Pai precisamente, que tudo sabe e pode fazer, que tudo controla e, claro, nos protege.

No entanto, estamos preocupados com que esta forma de entender a realidade – toda ela baseada na pedra angular desta Pessoa Suprema lá em cima – não seja uma explicação satisfatória, porque, de fato, há muitos casos em que ela não funciona, pois Ele parece não nos proteger. Há muitos crentes que não estão satisfetios com essa explicação “teísta” e se sentem aliviados sabendo que não é a única explicação que existe, e que podem não acreditar nela e procurar uma nova maneira de explicar a realidade: sem segundo andar, sem um nível sobrenatural ou celestial, sem um Theos lá em cima/lá fora, que intervém sempre que necessário para cuidar de nós. São pessoas para as quais, pelo que refletiram, a explicação clássica (o “teísmo”) lhes parece incrível, como se tivesse sido elaborada para crianças.

E se aquilo que temos chamado de Deus seja a alma, o poder, o Mistério, a criatividade deste cosmos fantástico em que estamos e de onde viemos, mas não um Alguém; não um Senhor misterioso fora ou acima do mundo?

E se o cosmos, a Realidade, não tivesse dois andares?. E se a explicação do mundo não consiste na existência de uma Super-pessoa onipotente e onisciente controladora em um segundo andar? E se aquilo que temos chamado de Deus fosse a alma, o poder, o Mistério, a criatividade deste cosmos fantástico em que estamos e de onde viemos, mas não Alguém; não um misterioso Senhor exterior ou superior ao mundo? Somos a primeira geração à qual a ciência moderna deu um conhecimento que os humanos que nos precederam nunca imaginaram. Não é estranho então que as explicações que as gerações anteriores nos transmitiram não nos sejam mais utéis; foram explicações muito perspicazes e cheias de boas intenções, mas hoje, para nós, estão ficando para trás, estamos aquém.

Nossos bisavós pensavam que o mundo tinha 6.000 anos – o que a Bíblia havia dito a eles. Quando nossos pais nasceram, foi descoberto que estávamos em “uma” galáxia, e eles pensaram que o mundo era essa galáxia. Agora sabemos que pode haver trezentos bilhões de galáxias, com duzentos bilhões de estrelas cada. Sabemos que a história conhecida deste cosmos não tem menos de 13,7 bilhões de anos. Passaram-se apenas 25 anos (1996) desde que descobrimos que existem planetas fora do nosso sistema solar. E o cosmos interior, planetas como o nosso, com capacidade de ter vida … podem ser trilhões de trilhões que contenham vida … (vegetal, animal, humana, espiritual, religiosa…?). Será que esses “humanos” também explicam a Realidade recorrendo à existência de um Deus que lhes deu o mundo e cuida deles diante de qualquer perigo local?

Começamos a perceber que deve haver uma explicação maior, mais desinteressada, mais profunda … que foge do nosso entendimento e que apenas intuímos; e que é sagrada, onde quer que se olhe: desde as partículas subatômicas e o mar profundo da sopa quântica que as constitui, até esse corpo cósmico global que transborda de Criatividade e Mistério.

Admirando o profundo e belo mistério da Realidade, matéria, estrelas, galáxias, a evolução do cosmos, o surgimento da Vida, a espécie humana, a entrada da Terra (com os humanos) ao nível da Consciência, reflexão, espiritualidade … cientistas, e muitos homens e mulheres reflexivos, estão começando a perceber que é possível que exista uma explicação maior, mais desinteressada e mais profunda, que foge do nosso entendimento e que apenas intuímos; que é sagrada, onde quer que se olhe: desde as partículas subatômicas e do mar profundo da sopa quântica que as constitui, até esse corpo cósmico global que transborda de Criatividade e Mistério. Talvez esse Cosmos fantástico, tão radicalmente diferente daquele que nos ensinaram quando crianças, não precise de um relojoeiro para montá-lo … nem de um vigia universal para supervisionar qualquer possível erro (que seja real ou que nos pareça), nem de Alguém que assuma a posição de proteger a nossa espécie frente todas as outras – inclusive a dos desconcertantes vírus mutantes. Hoje a ciência pensa que não somos o mais importante neste cosmos, e que não é muito razoável pensar que existe Alguém que se encarrega de canalizar tudo para que nada de mal nos aconteça. .. nem mesmo a COVID.

As pessoas que sentem isso não podem mais continuar acreditando com a mesma certeza com que nossos avós acreditaram na história, nem no significado do cosmos que as religiões lhes apresentavam como uma doutrina de fé exigida sob pena de pecado mortal (!).

A verdade mais verdadeira e humilde é que não temos explicação. A ciência nos diz que “estamos apenas abrindo nossos olhos” … Ainda não sabemos onde estamos: o que é isso, ou de onde vem, ou para onde vai. Ainda não sabemos o que fazemos aqui, ou se somos apenas um capítulo fugaz de uma aventura cósmica infinitamente maior. As pessoas que sentem isso não podem mais continuar acreditando com a mesma certeza com que nossos avós acreditaram na história, nem no significado do cosmos que as religiões lhes apresentavam como uma doutrina de fé exigida sob pena de pecado mortal (!).

Estamos em um momento histórico realmente interessante: assediados por um vírus, deslumbrados pela ciência, decepcionados com a nossa velha segurança religiosa que ficou para atrás, como aquelas roupas que deixamos para trás quando crescemos. Não é fácil apreender o todo, nem reconhecer e localizar as limitações de nosso conhecimento. Mas é possível que a contemplação do Mistério da Realidade nos encha de compreensão, humildade e abertura, para continuarmos acreditando na Vida, no Cosmos e na Criatividade Misteriosa em que tudo está impregnado.

Mesmo sem ter uma resposta à pergunta “sobre Deus, a COVID e o problema do mal”, talvez possamos nos acochegar na Paz e na confiança, em comunhão com o sábio Divino Mistério do Cosmos, depois de fazer tudo o que for possível para controlar o Coronavírus. Embora seus ataques nos causem dor e não tenhamos respostas para saber o que está acontecendo, podemos nos sentir serenos e confiantes nesta comunhão divina com o Cosmos.

Talvez esta seja nossa melhor “resposta”.

 

Resposta na página: servicioskoinonia.org

 

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Dia do índio 2021: a luta Xavante continúa

Dia do índio 2021: a luta Xavante continúa

Uma das lutas mais intensas e significativas dos Povos Indígenas em todo o Brasil foi a retomada da Terra Indígena Marãiwatsédé, em Mato Grosso, ocorrida em 2012 após mais de 50 anos de luta.

Em 1965, famílias Xavante foram retiradas a força de suas terras ancestrais pelo governo militar, e levadas em aviões da Força Área Nacional (FAB) para a Missão Salesiana São Marcos. O grupo agrícola Ometto — da família da gigante sucroalcooleira Cosan — tomou a área. Em decorrência dessa remoção forçada, faleceram mais de 150 indígenas e as famílias do Povo Xavante de Maraiwãtsédé foram separadas.

 

[…] E os brancos começaram a se aproximar para roubar a terra. Então, cada vez mais, eles chegavam. A nossa tradição era dividir aldeia, porque o espaço era grande. Já estava perto de abare’u fazer a cerimônia, mas quando os brancos já estavam próximos o nosso uuu não tinha feito a cerimônia. Daí começou a encurralada atrás da terra. Eles eram espertos.
Tserewa’waDepoimento ao MPF

 

As terras dos Xavante foram vendidas posteriormente a holdings internacionais do agronegócio, como a italiana Agip Petroli, que explorava a fazenda Suiá-Missu, construída sobre a deportação. Segundo explica Pedro Casaldáliga em sua Carta Pastoral de 1971, a Fazenda Suiá-Missu possuía cerca de 695 mil hectares na década de 70, «extensão que superava a do próprio Distrito Federal».

Durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente de 1992, celebrada no Rio de Janeiro, os Xavante pressionaram as autoridades nacionais e internacionais e o presidente da Agip, Gabriele Cagliari, -que cometeria suicido pouco depois em uma prisão da Itália, acusado de corrupção, se comprometeu publicamente a devolver a área dos Xavante.

Porém, como relatava o jornal italiano La Repubblica em 1993: «o sonho dos Xavante, expulsos de suas terras em 1966, permaneceu um sonho. Os 168 mil hectares da fazenda Suia Missu, no Mato Grosso, um ano depois, ainda são de propriedade da Agip Petroli».

O litigio com os Xavante ainda permaneceu sob a inação do governo brasileiro por mais de 5 anos, até que a Terra Indígena Marãiwatsédé foi homologada pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 1998.

Agência Pública: Mapa da área Xavante no Araguaia

Antes disso, porém, o poder público de São Félix do Araguaia e alguns fazendeiros da região incentivaram 2 mil posseiros a invadirem a área. O conflito tornou-se iminente: Em 2004, houve notícia de que três fazendeiros invasores da terra haviam contratado um pistoleiro para matar dom Pedro Casaldáliga. Mesmo ameaçado, recusou escolta policial e continuou seu trabalho pastoral e social normalmente, dizendo que só a aceitaria quando todos os camponeses tivesses direito a ela.

Ao longo de 50 anos de exilio forçado, os Xavante foram constantes em defender os seus direitos. Quando foram expulsos, deportados — esta é a palavra, eles foram deportados —, seguiram vinculados a esse terreno, vinham todos os anos recolher pati, uma palmeira para fazer os enfeites.

Os Xavante sempre reivindicavam a terra onde estão enterrados seus velhos. E tiveram sempre presente a sua terra.

“A Terra Marãiwatsédé está em nossos corações”

Nos últimos meses de 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou a remoção dos invasores e a entrada efetiva do Povo Xavante na Terra Indígena Marãiwatsédé. No dia 7 de novembro de 2012 começaram a entregar no local as notificações que pedian a saída dos invasores. Finalmente, após quarenta e seis anos de exilio, os Xavante tiveram definitivamente reconhecido o direito a seu território. 

A saída dos invasores, porém, não seu de forma pacífica e foi necessária a intervenção da Força Nacional para poder retirar as pessoas que permaneciam na área. Houve enfrentamentos organizados com a policia e atos vandálicos para destruir (ainda mais) a terra dos indígenas. Por causa desse conflito, Pedro Casaldáliga teve que abandonar a sua casa em São Félix do Araguaia devido às ameaças de morte que recebeu.

 

Marãiwatsédé hã
Tôtsena ti’a na watsiri’ãmo Wahõiba duré
Höiba-téb’ré hã, Ãhawimbã Date itsanidza’ra hã
Ahãta te Oto aimatsa’ti’ a na Ítémé we’re’iwadzõ
mori hã adza Oto ãma wawa’utudza’rani
Ti’a’a’a’ana… Ai’uté hã ãma ipótódza’ra hã
Tedza Oto ãma tsitébrè ti’a’a’a’ana.

A Terra Marãiwatsédé está em nossos
corações e em nossas almas
Ainda pequenos nos retiraram deste lugar
Mas hoje reconquistamos nossa terra,
nosso lar Agora de volta vou descansar nesta terra,
nesta terra, nesta terra…
Aquí eu nasci e nesta terra vão se criar nossas crianças

Marcio Tserehité Tsererãi’ré

 

A terra que os indígenas retomaram, no entanto, era bem diferente daquela da qual foram retirados à força: em 2012, pelo menos dois terços dos 165 mil hectares da reserva haviam sido desmatados por madeireiros, fazendeiros e posseiros. Marãiwatsédé chegou a liderar o ranking de terras indígenas mais desmatadas do país.

Marãiwatsédé, que foi o lar farto dos Xavante por séculos, enfrenta hoje o desafio vital da escasez de alimentos, da falta de água, dos solos degradados por causa do desmatamento e, ainda, as invasões pontuais e os incêndios criminosos que, ainda hoje, se registram na área.

Porém, aos poucos e sempre em luta, os Xavante estão conseguindo viver em sua terra ancestral e estão construíndo aldéias e se organizando. Mais de 1.200 indígenas moram hoje nas terras de Marãiwatsédé.

O caminho é longo e vai ser muito difícil. As ameaças não faltam.

Mas, o Povo Xavante de Marãiwatsédé não tem medo. Para eles, a esperança sempre vence!

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