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As 7 atitudes fundamentais para viver a «Ecologia Integral»

10 novembro 2021

Estas são algumas das atitudes profundas, urgentes e necessárias que emergem de outra visão sistémica, totalmente ecológica, que pode ajudar a salvar a vida e o Planeta. Os congressos ou os ténues compromissos entre países esquecem que é necessária uma mudança de paradigma, uma mudança no esquema de pensamento,…uma mudança profunda no sistema.

 

1. SUPERAR O AMBIENTALISMO

 
Em geral, muitas pessoas, empresas, ONGs e até governos estão preocupadas/os com o meio ambiente e a ecologia. São as que costumamos chamar de ambientalistas, comprometidas/os com a preservação do meio ambiente, da natureza, do planeta… Chamamos de “ambientalismo” essa atitude que, felizmente, está crescendo nos últimos anos. Porém, agora é urgente ir além do ambientalismo e passar a uma atitude de “ecologia integral”. Qual é a diferença entre as duas?

 

Ambientalismo, atitude ecológica incompleta

 
Os ambientalistas atuam como bombeiros, apagando incêndios: hoje reivindicam que um parque seja declarado “de proteção”, amanhã protestam contra a construção de uma represa, no outro dia contra uma mina e assim por diante. É ótimo que façam isso! Se trata de uma ação essencial, porém não é suficiente e não resolve os problemas; simplesmente cura os sintomas, embrulha os ferimentos, permitindo que o problema principal, a causa mais profunda, continue.

 

Poble Indígena Xavante a l'Araguaia

Os Povos Indígenas são um exemplo da mudança de paradigma. Da vida humana que se confunde com a vida do Planeta.

 

Esse ambientalismo superficial identifica os problemas ecológicos naquilo que impede o funcionamento da “sociedade moderna desenvolvida” (esgotamento ou contaminação dos recursos naturais, desastres, etc). Não questiona o mito do desenvolvimento ilimitado, do crescimento econômico constante…

 

Mentalmente, o ambientalismo continua dentro do sistema, provém da mesma mentalidade que tem causado os problemas ecológicos. Propõe uma política de soluções que não acabam com o dano, mas simplesmente tratam de aliviar as consequências e, com isso, o prolongam.

 

A atitude ecológica radical

 

Outra atitude é ecologia radical, pois vai até a raiz do problema. As várias correntes ecológicas que adotam essa visão “radical” identificam a verdadeira causa do problema no leque de ideias e representações que tem possibilitado a depredação da natureza e levado o mundo ocidental à autodestruição. Esta é a raiz do problema, porque vai até a raiz do sistema que o causou..

Por isso, os ecologistas propõem lutar por uma mudança nas ideias profundas que sustentam nossa civilização e configura a forma de relação com a natureza, relação que levou ao desastre atual e a uma possível catástrofe.

A atitude ecológica radical implica uma crítica aos fundamentos culturais do Ocidente. Questiona fundamentalmente:

a) A primazia absoluta que damos aos critérios econômico-materiais para medir a felicidade e o progresso; a crença na possibilidade de um crescimento constante e ilimitado na economia, em luxos e na população humana, como se não houvesse limites ou não os estivéssemos ultrapassando;

b) A crença de que a tecnologia e o crescimento solucionarão todos os problemas;

c) O absurdo de uma economia que quantifica tudo, exceto os gastos ecológicos e, sobretudo, a ignorância quanto à complexidade da vida, a sacralidade da matéria e a força espiritual do Universo.

 

Se não erradicarmos a forma de pensar que é a causa da nossa destruição do planeta, as atitudes ambientalistas serão de pouca utilidade, apagando os incêndios causados por esta mentalidade.

 

A forma tradicional de pensar e o paradigma antiquado, que tem raízes filosóficas e até religiosas, posicionaram-nos historicamente em guerra contra a natureza, contra a biodiversidade, contra os bosques, os rios, a atmosfera, os oceanos.

Somente mudando a forma velha de pensar nos reconciliaremos com o planeta. Se não erradicamos a forma de pensar, razão pela qual estamos destruindo o planeta, as atitudes ambientalistas serão inúteis, apagando incêndios causados por uma mentalidade, deixando que siga em pé a mentalidade velha, causando desastres ecológicos todos os dias.

 

Incendi aprop de São Félix do Araguaia

Incêndio na região do Araguaia provocado para queimar a floresta e “abrir” novas áreas para o gado.

 

Visão holística

 

Uma visão nova, não antropocêntrica, mas holística: o ponto de vista agora é a partir do todo (natureza), e não a partir da parte (o ser humano).

E acreditamos na primazia do todo sobre a parte. O ser humano precisa da Natureza para sobreviver. A Natureza se vira sozinha sem o ser humano.

O humanismo clássico postulava que o ser humano era o único portador de valores e significado e que todo o resto era matéria bruta a seu dispor. É uma visão enormemente equivocada, que nos colocou contra a natureza e que precisa ser erradicada.

 

Somente se abordarmos uma “reconversão ecológica” de nosso estilo de vida, de nossa mentalidade, incluída a espiritualidade, estaremos no rumo do “retorno à Casa Comum”, à Natureza da qual nos exilamos indevidamente em algum mo- mento do passado.

 

Não se trata somente de “cuidar” do planeta porque é de nosso interesse, ou porque a vida está ameaçada, ou por razões econômicas, nem mesmo para evitar a catástrofe que se aproxima. Todas as razões são válidas, porém elas ainda pertencem ao sistema que causou o problema, e não consertarão a raiz dele.

Somente se abordarmos uma “reconversão ecológica” de nosso estilo de vida, de nossa mentalidade, incluída a espiritualidade, estaremos no rumo do “retorno à Casa Comum”, à Natureza da qual nos exilamos indevidamente em algum mo- mento do passado.

Captar as razões mais profundas, os motivos que vão à raiz e descobrir a ecologia como caminho integral de sabedoria para a própria realização pessoal, social e espiritual significam chegar a descobrir a “ecologia integral”, para viver a comunhão e a harmonia com tudo o que existe e tudo o que somos em plenitude, sabendo-o e saboreando-o, de forma integralmente ecológica, sem recair em atitudes breves, simplesmente ambientalistas, no meio do caminho.

 

2. ADOTAR UMA NOVA COSMOLOGIA

 

O mundo que hoje conhecemos é totalmente diferente do mundo em que pensávamos que estávamos. Se somos “seres no mundo”, a ciência transformou-nos, porque nos torna conscientes de que estamos num outro mundo. E este outro mundo não é apenas diferente nas suas dimensões (infinitamente maior no espaço, no tempo), mas também na sua história, e acima de tudo na sua natureza e complexidade. É “outro mundo”. E é por isso, nós, que fazemos parte desta nova visão do mundo, acabamos por ser algo diferente do que pensávamos que éramos..

A partir desta nova visão que a ciência torna possível hoje – pela primeira vez na história da humanidade – é agora necessário “reconverter tudo”., reelaborar e reformular aquilo em que até agora acre- ditávamos – nossa ideia do mundo, do cosmos, da matéria, da vida, de nós mesmos, do espiritual. Tudo é diferente a partir da nova visão.

Temos que nos reinventar, recriar, é hora de reconverter a partir de uma nova visão da ecologia integral.

 

3. TER UMA NOVA VISÃO DO MUNDO

 

Até a algumas décadas, e até hoje, aonde ainda não chegou a influência da nova ciência, as pessoas e a sociedade são portadoras da visão tradicional do mundo, que o concebia como um aglomerado de objetos (não comunidade de seres vivos, nem mesmo como um quase organismo vivo).

Durante os últimos séculos, foi inteiramente dominante a divisão cartesiana da realidade em coisas materiais, extensas (físicas, inanimadas, materiais, organizadas mecanicamente) e entidades espirituais, pensantes, com consciência, incorpóreas.

Todo o mundo extenso estaria composto de matéria, essa realidade física compacta, inanimada, passiva, sem vida, estéril por si mesma. Os animais não deixariam de ser máquinas bem organizadas, porém desprovidas de entidade mental ou espiritual.

Tudo seria objeto, todo um mundo de objetos, no que estaríamos decepcionantemente sozinhos, sem ninguém com quem partilhar fora de nós mesmos.

 

Existe apenas uma árvore genealógica neste Planeta, que agrupa e inclui todos os seres vivos (incluindo os humanos).

 

Otra visión de la vida

 

A visão tradicional que temos dos demais seres vivos é de seres inferiores, classificados em espécies e famílias separadas, “criadas” de um modo fixo e estável desde o princípio, independentes, sem parentesco. Hoje, as ciências ecológicas dão uma visão totalmente diferente.

Sem que saibamos ainda se a vida brotou em nosso planeta ou chegou aqui trazida por meteoritos, o que parece certo é que toda a vida do planeta está emparentada. Somente uma, porque é a mesma,, mas evoluída com uma criatividade inimaginável.

A ciência faz ver hoje que não existem famílias vegetais e animais soltas, independentes, que partilham somente aparências externas. Na verdade, todos os seres vivos são membros de uma mesma e única família. Há somente uma árvore genealógica no planeta, que agrupa e inclui todos os seres vivos (humanos, inclusive).

 

La biosfera

 

Não é um aglomerado de seres vivos amontoados na superfície do planeta. Mas uma rede de sistemas, e sistemas de sistemas, interdependentes, retroalimentados, que dependem de interações de variáveis sutis que mantêm estáveis os equilíbrios do que depende o bem-estar comum.

 

São Félix do Araguaia

Vista aérea del pueblo de São Félix do Araguaia, donde Casaldáliga vivió más de 40 años.

 

Estamos em um mundo novo

 

Um olhar para o mundo a partir de uma perspectiva integralmente ecológica dá a visão radicalmente diferente. Tudo é diferente da visão cartesiano-newtoniana pela qual nos considerávamos a bordo de uma rocha esférica enorme, errante pelo espaço, cheia de objetos e coisas (máquinas viventes, como plantas e animais) das que podíamos dispor sem nenhum olhar maldoso, porque afinal eram recursos materiais à nossa disposição. Ao pensar o mundo como cheio de meros objetos, convertíamo-nos em sujeitos desencantados, separados da raiz da Comunidade da Vida.

 

A visão ecológica integral nos transporta do velho mundo desencantado de objetos-recursos, a uma Terra Viva, vibrante de energia auto-organizadora e autoconscientizada. Não estamos sozinhos, rodeados de meros objetos, de puras coisas sem alma. Com a nova visão, estamos voltando ao nosso verdadeiro lar: uma Terra cheia de Vida e de Misteriosidade, à qual sentimos que pertencemos e, a partir da qual pertencemos ao Universo inteiro.

 

A visão integralmente ecológica, pelo contrário, oferece um olhar inteiramente diferente: um mundo sem objeto; sou “matéria inerte”, cheia de vazio fecundo e vibrações subatômicas, de energia auto-organizativa, vida inteiramente emparentada, organizada em redes de sistemas encaixados uns dentro dos outros, em um conjunto global vivo. Gaia, nosso lar, a placenta na qual fomos gerados e vivemos.

A visão ecológica integral nos transporta do velho mundo desencantado de objetos-recursos, a uma Terra Viva, vibrante de energia auto-organizadora e autoconscientizada. Não estamos sozinhos, rodeados de meros objetos, de puras coisas sem alma. Com a nova visão, estamos voltando ao nosso verdadeiro lar: uma Terra cheia de Vida e de Misteriosidade, à qual sentimos que pertencemos e, a partir da qual pertencemos ao Universo inteiro.

 

4. UMA NOVA VISÃO DE NÓS MESMOS

 

Em uma perspectiva integral, a ecologia afeta a forma de nos entendermos. Há milhares de anos nos vimos como “outra coisa”, algo diferente de tudo o que existe no mundo, seres infinitamente superiores, e por isso com direito ao domínio absoluto sobre tudo o que existe na Terra.

Para compreender e expressar isso, criamos crenças e mitos religiosos com fins de “justificação”: teríamos sido criados por Deus separada- mente, no sexto dia da criação, “à sua imagem e semelhança”; apenas nós. Viemos de cima (de Deus), não de baixo (da Terra); de fora deste mun- do (somos espirituais e imortais), não de dentro. Porém, as modernas ciências cosmológicas veem as coisas de outro modo:

 

Somos Terra

 

  • Não viemos de fora, mas de dentro: ou seja, viemos da terra. Nosso corpo é feito de átomos, de elementos que não são eternos, com data de fabricação, elaborados pelas estrelas, na explosão das supernovas, que permitiram a aparição – pela primeira vez – do cálcio para nossos ossos, do ferro para nosso sangue, do fósforo para nosso cérebro. Todos os átomos têm bilhões de anos, desde que explodiu a supernova (Tiamat), que deu origem ao sol. Tudo o que aconteceu ao longo de bilhões de anos de evolução da Terra, e que nos fez possíveis, é a própria “história sagrada”, não apenas os 4 mil anos de relatos sagrados das religiões.

 

  • Não viemos de cima, não caímos como um pacote pronto e preparado, mas somos uma espécie emergente, formada por evolução a partir de outras que nos antecederam. Somos primatas, da família dos grandes símios, e somos a espécie que permaneceu das várias do gênero homo que percorreram o itinerário evolutivo de ampliação do encéfalo e cérebro, com o qual atingimos um nível de consciência e autoconsciência único no conjunto da Comunidade da Vida.

 

  • Nossa reflexão, nossa espiritualidade, e talvez a atual secularidade e pós-religiosidade são a evolução da Terra e da Vida além da evolução biológica e genética, além da evolução cultural. É a Terra e a vida que lhe dão alento, que vivem e se expressam em nós e nos transcende.

 

Questionarmos tudo isso e requestionarmos a velha forma de nos percebermos separados do mundo, superiores a ele, alheios a tudo o que é cósmico e ecológico significa que estamos voltando à nossa casa, ao nosso lar ecológico, de onde nunca deveríamos ter partido. É voltar a pôr os pés na Terra, no solo da Vida.

 

Coleta de sementes do Cerrado no Assentamento Dom Pedro

O Sr. João Carlos coleta sementes de espécies nativas do Cerrado no assentamento Dom Pedro, em São Félix do Araguaia. Ele vive na terra e para a Terra.

 

Nos ver de forma diferente

 
A partir do modo integralmente ecológico de observar o mundo, vemo-nos de um modo diferente:

  • Não fomos criados em um momento dado, mas somos o resultado da evolução de espécies anteriores. Somos uma espécie emergente.

 

  • Não somos seres celestiais, mas terrestres, telúricos: somos Terra, a própria Terra que culminou conosco sua Aventura evolutiva e a faz mais consciente. Somos Terra, somos como sua própria alma, ela é como nosso corpo. Em nós ela chegou a sentir, refletir e ter responsabilidade.

 

  • Não somos o centro do cosmos, nem da Terra e nem do Universo. O antropocentrismo (ver tudo
    a partir da perspectiva dos interesses humanos) foi uma miragem e um erro o qual a Terra, a Comunida-
    de da Vida e nós próprios estamos pagando caro.

 

  • Somos a evolução da Terra e da Vida além da evolução biológica e genética. Pertencemos ao Cosmos, ao Universo, à Terra, à Comunidade da Vida. Somos parte do mistério. Acreditamos que estamos separados ou desligados do Cosmos ou somos dele independentes; ser diferentes foi um erro nefasto ainda muito resistente.

 

     

    5. SENTIR UMA NOVA ESPIRITUALIDADE

     

    A Ecologia Integral é uma forma de observar (paradigma) que incorpora o marco da natureza: considerados parte da natureza, do mundo, da realidade cósmica. Também aquilo que é espiritual e religioso? Sim. Tudo.

    Tradicionalmente nem sempre foi assim. Considerava-se que o espiritual era totalmente diferente do mundo material. O espiritual era o não material, o não corpóreo, o não terrestre. Acreditávamos que o espiritual pertencia a outro mundo, o mundo celestial, chamado de sobrenatural. O dualismo era considerado dado, separação radical entre os dois âmbitos.

    Mas seria a espiritualidade assim, ou isso foi uma forma de compreendê-la que hoje poderia ser substituída por algo melhor, mais à altura do que sabemos e vemos, que nossos ancestrais não sabiam nem viam: hoje, no tempo da ciência e da ecologia integral, é possível redescobrir a espiritualidade.

     

    Eco-Espiritualidade: experiência espiritual transformadora

     

    A ecoespiritualidade não é um saber intelectual, um conjunto de ideias, mas um saber-sabor cordial, processado com a inteligência ecossensível, com o coração. É uma experiência de admiração extasiada da beleza assombrosa do cosmo percebida como verdadeira epifania do mistério. Experiência contemplativa, transformadora, unitária, regozijante e, ao mesmo tempo, de êxtase, que nos extrai de nós mesmos e nos transporta a um mundo inefável.

     

    A ecoespiritualidade representa, sem dúvida, o retorno à casa, ao nosso oikos, nosso lar, nossa placenta espiritual.

    A ecoespiritualidade não é um saber intelectual, um conjunto de ideias, mas um saber-sabor cordial, processado com a inteligência ecossensível, com o coração. É uma experiência de admiração extasiada da beleza assombrosa do cosmo percebida como verdadeira epifania do mistério. Experiência contemplativa, transformadora, unitária, regozijante e, ao mesmo tempo, de êxtase, que nos extrai de nós mesmos e nos transporta a um mundo inefável. Ela produz um sentido de comunhão no dual (não estamos separados do Mistério, que nos arrebata e extasia), e com ele um sentido de pertencimento à Natureza, à Terra, à Vida, ao Universo, ao Todo Misterioso.

    Não é preciso nos afastarmos do mundo (ao contrário!) e nem nos submetermos a um processo de iniciação complicado: tudo isso está ao alcance de qualquer um que o realize.

     

    Eco-Espiritualidade e praxis

     

    Ver e sentir de outra forma leva, inevitavelmente, a agir de forma diferente. Olhos que veem, coração que sente e mãos que atuam. Nos sentir pertencentes à Terra nos leva a defendê-la como se fosse o próprio corpo, como a nossa Casa Comum.

    Recuperar uma espiritualidade ecocentrada, livre da alienação milenar que fez nos sentirmos mais como filhos do céu do que da Terra, a única esperança para salvar a Vida e o Planeta, porque deixaremos de destruir a Terra apenas quando sentirmos seu caráter sagrado, e nos sintamos integralmente parte de seu Corpo divino.

     

    6. NOS TRANSFORMAR ECOLOGICAMENTE

     

    A cada dia, os meios de comunicação apelam ao “crescimento econômico”, como o único que importa. Crescer na renda econômica, no dinheiro, à custa do que quer que seja. É um discurso hegemônico em nossa sociedade.

    Como no conto de Andersen: já tem bastante gente que intui o que é falso, que é precisamente o contrário do que estamos necessitando – não tanto crescer, quanto simplesmente desenvolver-nos, quer dizer, organizar-nos melhor, distribuir mais equitativamente, e deixar de destruir nosso próprio habitat, cuidar de nosso nicho ecológico, romper com hábitos e luxos supérfluos e daninhos. E, sobretudo, mudar o padrão energético atual, que é à base de energias fósseis que envenenam constantemente o ar que respiramos,

    Sejamos realistas e digamos a verdade: já estamos na 6a grande extinção, no caminho certo que conduz à grande catástrofe. Outra coisa é que, teoricamente, se poderia parar… Mas a realidade é que levamos uma grande inércia, que nos faz dificílimo parar, e para agravar, não estamos convencidos da necessidade de fazê-lo, nem estamos dispostos a assumir os grandes sacrifícios que teríamos de fazer para conseguir ir freando e, finalmente, determos na estrada até a catástrofe.

     

    Só se mudarmos muito, muitíssimo, e só se o fizéssemos muito rapidamente, poderíamos evitar essa catástrofe, que agora mesmo é o mais provável.

     

    Só se conseguirmos fazer uma reconversão sócio- politico-produtiva descomunal de nossa sociedade,
    e uma transformação radical de nosso estilo de vida, de nosso padrão energético e de nosso sistema de produção, poderíamos detê-los.

    Só se mudarmos mui- to, muitíssimo, e só se o fizéssemos muito rapidamente, poderíamos evitar essa catástrofe, que agora mesmo é o mais provável. Se não o conseguirmos, ou – o que é pior – se simplesmente não fazemos nada- ainda que seja sem deixar de “falar” no assunto – a catástrofe está garantida. Continuar tendo medo em dizê-lo é um erro. Tenho que dizê-lo.

     

    Crianás do Povo Xavante

    Os Povos Indígenas “sentem a sacralidade da terra”. Portanto, valorizar e lutar pela preservação da sua cultura e visão do mundo é também um compromisso com a Vida.

     

    7. PRATICARMOS A ECOLOGIA INTEGRAL

     

    Construirmos um novo sistema econômico integralmente funcional à conservação e ao crescimento da vida, e ao Bem Viver da humanidade em harmonia com nossa irmã e Mãe Terra. Eis a grande transformação que urge ser colocada em prática.

     

    Com toda a visão ecológica crítica a que hoje chegamos, é obvio que temos que mudar. Se sabemos que o mundo não é como havíamos imaginado; se nos sentimos de outra maneira; se percebemos que nossa conduta errada nos submeteu a um caminho de autodestruição, é urgente ser coerentes com a nova visão integralmente ecológica.

    Abandonar o atual modelo civilizacional, voltado inteiramente ao pós-“crescimento econômico”, contrário ao planeta e ao custo da vida – que já esgotamos e continuamos destruindo, na nova extinção massiva que inauguramos –, e construirmos um novo sistema econômico integralmente funcional à conservação e ao crescimento da vida, e ao Bem Viver da humanidade em harmonia com nossa irmã e Mãe Terra. Eis a grande transformação que urge ser colocada em prática.

    Com os novos fundamentos teóricos (a nova Visão que a Ciência permitiu) e com a força interior que nos dá a nova sensibilidade espiritual relaciona- da à natureza, podemos/devemos colocar em marcha novas práticas integradas com a visão integralmente ecológica. Temos que assumi-las com plena convi- cção, em nossa própria vida em primeiro lugar, e tratar de difundi-las militantemente.

     

    Uma mudança radical do sistema energético

     

    Obviamente nos é essencial a energia para viver, e na Terra, e principalmente nos raios do sol, existe mais do que suficiente, abundantemente. O problema é que sem saber disso, construímos nossa civilização sob a energia do carbono, cujo dióxido (CO2) somente muito mais tarde soubemos que envenena a atmosfera e produz o efeito estufa. Já está em curso há tempos, e hoje sabemos que avança perigosa e, sem dúvida nenhuma, esses últimos anos tem sido os mais quentes de que se tem conhecimento.

    Não temos tempo de ficar discutindo, é urgente acabar totalmente com a emissão de mais CO2. É preciso reduzir drasticamente o uso dos combustíveis fósseis (petróleo, gasolina, gás, carvão) em favor de energias limpas e renováveis.

     

    Uma mudança de estilo de vida

     

    Muitas pessoas, em diversos lugares, fazem coisas pequenas, em todos os aspectos da vida, que marcarão uma mudança profunda na vida do planeta. Com isso, darão início a uma civilização nova, civilização da austeridade compartilhada e do Bem Viver e em harmonia com a Mãe Terra:

    • Viver com austeridade, sem luxos, sem níveis de vida ofensivos para a imensa maioria da população mundial, que vive na pobreza.

    • Erradicar o consumismo. Não comprar o que não é indispensável. Não querer sempre “o último modelo”. Zero de gastos inúteis. Não à dieta obsessivamente carnívora. Não às comodidades não essenciais e invertê-las em favor da ecologia.

    • Os “5 Rs”: reutilizar, reduzir, recuperar, reciclar, regular.

    Trata-se de uma “transformação ecológica” e de uma “revolução cultural”: tudo é diferente, a única saída. O velho estilo de vida se torna “ecocida”: se não nos convertermos, nos suicidamos.

     

    Uma opção pelo decrescimento

     

    Se trata de um assunto polêmico, que tem muitos inimigos, pois esbarra em um dos “dogmas” mais sensíveis do sistema econômico capitalista: o do “crescimento contínuo, ilimitado”

     

    O “decrescimento” é uma correção do estilo de vida hoje urgente para retornar parte do caminho percorrido na autodestruição do planeta. Se trata de um assunto polêmico, que tem muitos inimigos, pois esbarra em um dos “dogmas” mais sensíveis do sistema econômico capitalista: o do “crescimento contínuo, ilimitado”. Mas em um planeta finito, em que já ocupamos muito do que ele precisa para repor nosso consumo, defender um crescimento ilimitado torna-se insustentável.

    Continuar reivindicando o crescimento ilimitado para dar a toda população mundial o nível de vida atual dos países desenvolvidos implicaria poder dispor de vários planetas; porém somente temos este. Pretender continuar crescendo desse modo é optar por auto asfixiar-nos.

    Precisamos necessariamente:
    – depreciar o mito da modernidade do crescimento ilimitado;
    – tratar de viver bem com menos;
    – não ao crescimento, mas sim ao desenvolvimento em outro nível;
    – não à “vida boa”, mas ao Bem Viver/Conviver.

     

    Uma opção pelo decrescimento

     
    Para uma boa prática, duas mudanças são prévias:

    Mudança de pensamento: olhos que não veem, coração que não sente… A pessoa que ainda tem a velha imagem, que ainda está pensando que é um ser celestial que vive no meio de um mundo de meros objetos e animais inferiores, vai depreciá-lo, sem ter consciência das maravilhas que o rodeia no meio da Comunidade da Vida, e sem conhecer os mistérios insondáveis do Cosmos de que somos parte.

    Impõe-se a disposição de estudar, ler sobre cosmologia, interessar-se pelo seguimento dos avanços da ciência (em livros e nas páginas especiais dedicadas à ciência nos principais jornais); ter sempre um livro de cabeceira sobre ecologia ou ciência em geral e compartilhar o tema com pessoas e amigos interessados.

    Mudança de espiritualidade: a espiritualidade tradicional olhava apenas o céu dos espíritos, não o mundo natural da Terra, e apenas nos remetia a textos sagrados espirituais. Parecia que uma pessoa era mais espiritual quanto mais se distanciava da Terra. Hoje estamos mudando; já intuímos que o espírito é inerente à matéria, que o mundo não é inimigo da alma e que podemos/devemos nos voltar à Terra como nosso lar espiritual.

     
    Este texto é uma síntese da publicação na Agenda Latinoamericana Mundial 2017

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