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Pere Casaldàliga

Os 8 traços fundamentais para se tornar um homem ou mulher “nova”

7 jun, 2021

Com maior ou menor lucidez, com uma lógica vital mais ou menos consistente, faz tempo que descobrimos a sociedade como um sistema, dentro da estrutura que nos envolve e nos condiciona, sob a inevitável solicitação da conjuntura diária.

A Igreja, boa conhecedora da eternidade e menos conhecedora da história, durante séculos, muitas vezes, considerou apenas às pessoas ou os indivíduos; ou, ainda mais dicotomicamente, às vezes só considerava as almas…

Sem nunca deixar de enfrentar aquela globalidade estrutural na qual a história humana é forjada e dentro da qual o Reino acontece, devemos agora redescobrir, de forma comprometida, a pessoa, membro da sociedade e protagonista da história e do Reino.

O homem e a mulher são seres estruturados e estruturantes. A história, o sistema e o Reino o fazem, mas, por sua vez, ele faz o sistema, a história e o Reino.

Pedro passeando à beira do rio Araguaia

Em nossa América Latina, por exemplo, hoje acordando convulsivamente para a segunda libertação total, dois grandes homens marxistas proclamaram, com suas palavras e com suas vidas – e com sua morte-, a utopia do novo homem, o sonho incontrolável do “homem da manhã” : Ché e Mariátegui. E na revista “Amanecer” de março e abril deste ano de morte e Graça de 1982 acabo de ler um trecho do premiado livro do comandante sandinista, Omar Cabezas, sobre “o olhar do novo homem” e “o novo homem que está na montanha…”. [Casaldáliga se refere à obra disponível AQUI.]

A reflexão e a experiência de uma espiritualidade de libertação na América Latina (no Terceiro Mundo, no mundo em geral, creio sinceramente), deve ter como consideração e exigência básica a utopia necessária do novo homem.

Há dias estou tentando esboçar, para mim mesmo, os traços fundamentais do novo homem. E essa tentativa é o que ofereço agora, como uma contribuição gaguejante ao livro da DEI sobre “Espiritualidade e Libertação na América Latina”.

Nossos teólogos, nossos sociólogos, nossos psicólogos e nossos pastores dirão sua palavra principal, cientificamente. E nossos santos e nossos mártires tornarão realidade – eles já o estão fazendo com uma grande efusão – a face latino-americana do novo homem.

As características do novo homem seriam, em minha opinião:

1. A LUCIDEZ CRÍTICA

Uma atitude de crítica “total” aos supostos valores, mídia, consumo, estruturas, tratados, leis, códigos, conformismo, rotina…

Uma atitude de alerta, impossível de subornar.

A paixão pela verdade.

2. A GRATIDÃO ADMIRADA, DESLUMBRADA

A gratuidade contemplativa, aberta à transcendência e acolhedora do Espírito. A gratuidade da fé, o viver da Graça. Viver em um estado de oração.

A capacidade de ficar maravilhado, de descobrir, de agradecer.

Amanhecer todos os dias.

A humildade e a ternura da infância evangélica.

O maior perdão, sem mesquinhez e sem servidão.

3. A LIBERDADE DESINTERESSADA

Ser pobre para ser livre diante do poder e das seduções.

A livre austeridade daqueles que estão sempre em peregrinação.

Uma morigerada vida de combate.

A liberdade total daqueles que estão dispostos a morrer pelo Reino.

4. A CRIATIVIDADE EM FESTA

A criatividade intuitiva, desinibida, bem humorada, lúdica, artística.

Viver em estado de alegria, de poesia, de ecologia.

A afirmação de autoctonia.

Sem repetições, sem esquemas, sem dependências.

5. A CONFLITIVIDADE ASSUMIDA COMO MILITÂNÇA

A paixão pela justiça, em espírito de luta, pela paz verdadeira.

A teimosia incansável.

A denúncia profética.

A política, como missão e como serviço.

Estar sempre definido, ideologicamente e experiencialmente, do lado dos mais pobres.

A revolução diária.

6. A FRATERNIDADE IGUALITÁRIA

A igualdade fraterna.

O ecumenismo, por cima da raça e da idade e do sexo e do credo.

Conjugar a mais generosa comunhão com a salvaguarda da própria identidade étnica, cultural e pessoal.

A socialização, sem privilégios.

A verdadeira superação econômica e social das classes que existem, para o surgimento de uma única classe humana.

7. O TESTEMUNHO COERENTE

Ser o que se é. Falar o que se acredita. Acreditar no que se prega. Viver o que se proclama. Até as últimas conseqüências e nas minúcias diárias.

A disposição habitual para o testemunho do Martírio.

8. A ESPERANÇA UTÓPICA

Histórica e escatológica. Desde o hoje para o amanhã. A esperança credível das testemunhas e construtores da ressurreição e do Reino.

É sobre utopia, a utopia do Evangelho. O homem novo não vive apenas de pão; ele vive de pão e de utopia.

Apenas os homens novos podem fazer o mundo novo. Penso que estes traços correspondem aos traços do Homem Novo Jesus. Foi assim que Ele viveu utopicamente; foi assim que Ele ensinou em Belém, na Montanha e na Páscoa; foi assim que Seu Espírito, derramado em nós, nos configurou com cuidado.

 

Publicado no livro “Experiência de Deus e Paixão pelo Povo. Escritos Pastorais”, em 1983.

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