Como uma carta de Casaldáliga mudou a Amazônia

No dia de sua ordenação como bispo, Pedro Casaldáliga publicou um amplo documento que destacava a situação de escravidão em que viviam a maioria dos camponeses da Amazônia. O documento também questionou a Igreja e logo despertou a perseguição contra ele e sua equipe.

31 de outubro de 2019

A vida de Pedro Casaldáliga

No dia de sua consagração como bispo, em 1971, Pedro Casaldáliga publicou a primeira denúncia global da situação na Amazônia.

A carta pastoral “Uma Igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” é um documento histórico que marca um tempo único na defesa dos povos indígenas, do meio ambiente, da situação das mulheres e da luta pela terra. Contra a pobreza e a marginalização desta região.

Era a primeira vez que um Bispo se posicionava tão abertamente sobre a situação da Amazônia.

Como Berta Campurbí disse em seu artigo Pedro Casaldáliga, 90 anos: um dia na casa do bispo dos pobres, publicado no El Periódico da Catalunha:

Naqueles anos, as terras de Mato Grosso eram dominadas pela sobreposição de títulos de propriedade, herdados principalmente da Lei de Terras de 1850, que distribuía ilegalmente territórios ancestrais indígenas, criando imensas propriedades agrícolas de até 7.000 quilômetros quadrados. Eram terras de pistoleiros, de abandono legal e institucional.

Lá, a violência era o método com o qual os conflitos eram resolvidos. Casaldáliga enterrou muitos camponeses, sem terra e indígenas naqueles tempos.

Berta Camprubí

El Periódico de Catalunya

O conteúdo do documento

Ao longo de 30 páginas da Carta Pastoral, o Bispo Pedro analisa com rigor a situação de escravidão e violência em que viviam os povos e comunidades da Amazônia, denunciando os problemas ambientais que, à época, começavam a ser percebidos e, naturalmente, o genocídio dos povos indígenas que os grandes proprietários de terra estavam realizando com a aprovação do governo militar brasileiro.

No documento se relatam detalhes dos casos de exploração mais gritantes da época, explicitando os nomes dos responsáveis -alguns grandes fazendeiros, e relatando a situação dos posseiros, dos índios e dos peões. 

Os primeiros desbravadores da região são os hoje chamados posseiros. Localizados aqui há 5, 10, 15, 20 e alguns até 40 anos. Cultivando o solo pelos métodos mais primitivos, plantando arroz, milho, mandioca. Lavoura de pura subsistência. Criando gado. Sem a menor assistência sanitária e higiênica, sem nenhum amparo legal, sem meios técnicos à disposição. Aglomerados em pequenos vilarejos, chamados Patrimônios (que foram vendidos pelo Estado como terras virgens – Santa Terezinha, Porto Alegre/Cedrolândia, Pontinópolis) ou dispersos pelo sertão afora a uma distância de 12 a 20 Km uns dos outros.
Pedro Casaldáliga, 1971

Como ele diria em sua carta, citando o professor Hélio de Souza Reis: “Indiferente a tudo, [os camponeses] tentam ganhar pão todos os dias, porque só há dois direitos para eles: o de nascer e o de morrer”.

Quando ainda quase ninguém falava na causa indígena; quando a preocupação com o Meio Ambiente não estava na mesa de qualquer discussão; e quando a extrema pobreza dos trabalhadores rurais, muitas vezes escravizados, era um assunto longe de qualquer foco da mídia ou da Igreja, a Carta Pastoral de 1971 torna-se um documento que indigna as vergonhas do Brasil e que, pela primeira vez, internacionaliza a crueldade da situação econômica, social e ambiental da Amazônia.

Como foi o impacto

O documento teve que ser impresso de forma clandestina, fora da região do Araguaia, pela fiel colaboradora de Casaldáliga, a Irmã Irene Franceschini. Com essas palavras explicava na Crónica desde São Félix, em 2008, a Maritxu Ayuso:

A mulher que, em plena ditadura, carregou uma caixa embrulhada num cachecol, a primeira carta pastoral de Pedro Casaldáliga em um avião militar! Quando perguntaram o que ela estava levando, respondeu “medicamentos, algumas roupas, coisas sem importância … se você quiser abrir …” !!!!

Martixu Ayuso

Associació Araguaia amb el Bisbe Casaldàliga

A carta do Bispo Pedro ecoou na maioria dos jornais e publicações do Brasil e desencadeou uma revolução no meio da repressão militar.

Nessa mesma época os interesses econômicos associados ao regime estavam se distribuíndo o Centro Oeste do País à custa dos povos indígenas e do Meio Ambiente e um bispo como Casaldáliga incomodava.

Depois de vários meses de boatos e calúnias, de ameaças de prisão, de morte, de “descida” da polícia federal e do exército, com prognósticos sucessivamente datados depois de várias tentativas de convencer-nos ou de intimidar-nos por meio de várias tentativas de convencer-nos ou de intimidar-nos por meio de mensageiros pessoais, naprimeira semana do mês de setembro último, o Sr. Ariosto da Riva – pai e mentor de latifundiários – acompanhado de um sacerdote religioso, se apresentou ao Senhor Núncio, no Rio, para tentar impedir a minha sagração…
Pedro Casaldáliga, 1971

Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social

E é que, como afirma o sociólogo José de Souza Martins (1995), “o documento é um dos mais importantes da história social do Brasil” e isso não iria ser tolerado pelos militares.

Em sua carta pastoral de 1971, Casaldáliga propõe uma nova forma de ver tal fato [a superexploração e falta de direitos dos trabalhadores rurais], faz uma longa e dura denúncia e inicia um consistente trabalho pastoral na Prelazia que começa primeiro por desnaturalizar tal violência, depois construindo uma rede de solidariedade entre trabalhadores migrantes e a igreja local.

Lucilene Aparecida Castravechi

XXVII Simpòsi Nacional d'Història. Natal. 2013

«Depois da divulgação dessa carta em 10 de outubro de 1971, que fez eco interna e externamente a Igreja, outros documentos com o mesmo caráter começaram a aparecer em diferentes regiões brasileiras. Dos bispos do Nordeste surgiu o texto “Ouvi os Clamores do Meu Povo” em 1973.

No mesmo ano, foi publicado o documento de urgência “Y-Juca Pirama – o Índio: aquele que deve morrer”, por bispos e missionários da Amazônia.

Do Centro-oeste do país os bispos publicaram o texto “Marginalização de um Povo, o “Grito das Igrejas” em 1974. Em 1980, em um documento
de caráter mais institucional do que esses primeiros, por ter sido publicado pela CNBB, “Igreja e os Problemas da Terra”, analisa e denuncia os resultados do desenvolvimento capitalista no campo brasileiro.», explica Marco António Mitidero, em “A geografia dos documentos eclesiais: o envolvimento da Igreja Católica com a questão agrária brasileira”, da Universidade Federal de Sergipe. 2010.

Leia o Carta Pastoral de 1971

Deixamos a carta em português, como foi escrita, na web amiga de Koinonia: Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifundio e a marginalização social.

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